Dez anos que mudaram o peronismo
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terça-feira, 06 de julho de 1999
Por Ariel Palacios, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 07 (AE) - "Pizza com champanhe": mistura do chique com o popular, esta combinação gastronômica era o que o presidente Carlos Menem comia quando assistia jogos de futebol na residência oficial de Olivos. O mix Chandon-calabresa se impôs não só no entourage de "el Jefe", como é denominado entre seus colaboradores, mas passou à elite e à sociedade argentina em geral. O refinado champanhe e a popular pizza também foram um símbolo de uma Argentina contraditória que nos últimos dez anos passou pela transformação mais radical e inesperada desta segunda metade do século na América do Sul, abdicando de sua ambição de ser uma potência regional e mesmo mundial, para atrelar-se ao capital internacional, à política externa dos EUA e à aceitação de que no Cone Sul, o Brasil é mais que um parceiro: é a locomotiva do Mercosul.
Apesar das intenções pragmáticas que tomaram conta do país, as aparências ainda importam, e mesmo com a assustadora pauperização sofrida nos últimos anos, o governo ainda tenta manter o "aplomb" de que a república ainda é um pedaço da Europa perdida ao sul do Equador.
As modificações começaram a ocorrer de forma acelerada há exatamente dez anos, no dia 8 de julho de 1989. Neste dia, Menem tornou-se o trigésimo terceiro presidente argentino. A posse não era esperada para este dia, e sim para cinco meses depois. Mas a hiperinflação de 4.900%, as constantes greves gerais, as ameaças de levantes militares e as rebeliões populares fizeram que o presidente Raúl Alfonsín renunciasse antecipadamente. Menem poderia ter escolhido o dia 9 de julho, data nacional, mas, supersticioso, preferiu o dia anterior, por conselho de uma astróloga.
Com estas peculiares circunstâncias, "El Turco", como é denominado popularmente, começou a modificar o país e a si mesmo: enquanto ia abandonando sem vacilações o poncho e as abundantes suíças que emulavam o caudilho Facundo Quiroga, Menem também alterou a estrutura política argentina: reduziu o poder dos sindicatos, ignorando seus líderes, para dedicar-se como nenhum outro presidente às festas com empresários do país, e do exterior, como o magnata George Sros, de quem transformou-se em habitual partner de jogos de tênis.
Além disso, transformou radicalmente o Partido Justicialista, mais conhecido como "peronista". Com ele, o peronismo abandonou a política estatizante, protecionista e assistencialista estabelecida pelo fundador do partido, o general Juan Domingo Perón, 50 anos atrás: vendeu todas as grandes empresas no início dos anos 90, adiantando-se à onda privatizacionista que atingiria os países da região anos depois.
Por um lado, as privatizações implementadas por Menem melhoraram os serviços públicos, os investimentos externos fizeram a economia argentina crescer como poucas no mundo, as reservas internacionais aumentaram de US$ 2,9 bilhões para US$ 27 bilhões. A inflação acabou, e o peso argentino está amplamente respaldado por reservas em dólares.
Mas, simultaneamente à Argentina próspera, uma outra Argentina surgia, onde os mendigos - antes uns poucos - tornaram-se multidões pelas ruas da capital do país: o índice de desemprego passou de 8% para 14%.
Somado ao desemprego, o subemprego passou de 19% para 27%. No momento, 13 milhões de argentinos são pobres (36% da população), e diversas províncias do interior possuem uma qualidade de vida tão ruim como a de países africanos.
"Argentina, levanta-te e anda!" exortou Menem ao tomar posse. Naquele momento, a expectativa por um governo que retirasse o país da hiperinflação lhe proporcionou 65% de popularidade. No anos posteriores, a estabilidade monetária, não foi suficiente: hoje, sua popularidade mal passa dos 15%.
A imagem de Menem também foi abalada por dois graves atentados contra a comunidade judaica, que juntos causaram 120 mortos, e mais de 600 feridos: a explosão da embaixada de Israel em 1992 e o ataque contra a associação beneficente judaica AMIA. Além disso, a morte de seu próprio filho, falecido em um acidente de helicóptero em circunstâncias suspeitas. Os casos de corrupção também mancharam cada ano de seu governo: há pelo menos cem casos registrados por comissões parlamentares, que envolvem não somente ministros e secretários, mas também parentes do presidente. Os escândalos dos dez anos de "menemismo" foram variados, passando por contrabando de armas, drogas e mortes de jornalistas.
Menem aproveitou sua estadia na Casa Rosa, ou mais ainda Olivos, para divertir-se e desfrutar do poder. Como um Marco Polo do século XXI, durante estes dez anos de governo, Menem viajou por centenas de milhares de quilômetros. No total, fez 177 viagens internacionais, visitando 66 países. É o presidente argentino que mais viajou para fora do país. O recorde é continental: segundo o think tank Rosendo Fraga, "Bill Clinton viajou um pouco menos que Menem". Só para o Brasil o presidente argentino viajou 17 vezes, e 14 para os Estados Unidos.
Segundo Fraga, ao atingir dez anos de governo, Menem torna-se o presidente na História deste século na Argentina que exerceu poder de forma ininterrupta por mais tempo. O país só teve quatro presidentes reeleitos, e Menem é um deles.
Nos últimos dez anos, Menem aplicou sua marca pessoal na política, fazendo-a, segundo Fraga, "menos ideológica e mais pragmática. Os programas do peronismo e da oposição se parecem cada vez mais". Além disso, o think tank considera que neste período geraram-se consensos políticos que antes não existiam, como a conversibilidade econômica e a paridade um a um entre o dólar e o peso. Em política exterior, os consensos tanto no governo como na oposição foram o Mercosul, a solução de problemas fronteiriços com o Chile e as Malvinas.
Com Menem, o Mercosul surgiu e estabeleceu-se como a quarta economia do mundo. Mas além disso, a Argentina rompeu o tradicional confronto com os Estados Unidos, e buscou uma política de alianças, que implicaram não só no envio de navios à guerra do Golfo, como também possibilitou a Aliança Extra-OTAN.
Ao tomar posse, Menem prometeu recuperar as ilhas Malvinas "a ferro e fogo", que desde 1833 estavam nas mãos da Grã-Bretanha. Mas nos anos posteriores, o presidente preferiu deixar de lado as bravatas, para buscar desesperadamente uma aproximação com os britânicos, com o qual o país estava de relações cortadas desde a Guerra pela disputa do arquipélago em 1982. Pela primeira vez em décadas, um presidente argentino foi em visita oficial à Londres, tomou chá com a rainha, e depositou uma coroa de flores no monumento aos soldados britânicos mortos. Mas apesar do flerte com os britânicos, o ano 2000 se aproxima, e ao contrário das promessas de Menem, nenhuma bandeira argentina está hasteada nas Malvinas.
Braço-direito de Menem desde os anos 70, o secretário-geral da presidência, Alberto Kohan, disse ao Estado que "a melhor avaliação do governo Menem está sendo feita pelas conquistas conseguidas: o fim de uma hiperinflação, a volta investimentos estrangeiros, e uma série de enormes mudanças que fizeram da Argentina um país que reúne as mesmas condições de Maastricht".
Kohan afirmou que há uma distância "muito grande" da Argentina da época da posse de Menem, mas admitiu que apesar de passada uma década, há problemas, "que serão resolvidas com tempo". O secretário, um dos principais articuladores políticos do presidente, sustentou que ao longo destes dez anos o Brasil passou a ocupar um lugar privilegiado nas relações exteriores do país: "nosso vizinho é uma prioridade para nós".


