Praga (AE-AP) - Dez anos atrás o comunismo tinha apenas chegado ao fim e os jornais tchecos pintavam Vaclav Havel como um líder revolucionário. Hoje, o presidente tcheco é um homem solitário, manipulado por sua jovem e mesquinha esposa de moral duvidosa, de acordo com os tablóides. O dissidente deste país pós-comunista vem se transmutando, desde a última década, de um objeto de quase mística adoração para um alvo quase diário da mídia local.
O que acontece com ele reflete, de alguma forma, o que ocorreu com a sociedade deste país nesta última década. Quando a cortina de ferro caiu, 10 anos atrás, qualquer um que se atrevesse a pronunciar uma palavra de crítica a Havel seria silenciado. Com seu passado como o mais proeminente dissidente do país, ele poderia fazer, e falar, com propriedade sobre o início da transformação democrática do país. Sua imensa popularidade o levou ao gabinete há 10 anos numa onda de adoração. Os tchecos respeitavam Havel por sua autoridade moral e acreditavam que sua fama no exterior levantaria a imagem do país.
Hoje, aos 62 anos, Havel é um leão no inverno. Seu estado de saúde é questionável: ele sofreu uma cirurgia para a retirada de um câncer nos pulmões em 1996 e vem sofrendo subsequentes crises de outras doenças. Sua condição de líder vem desgastando-se na medida em que os tchecos mudam, de revolucionários pacifistas buscando a democracia, para neo-capitalistas, que querem alcançar os padrões ocidentais de prosperidade através de todos os meios possíveis.
A popularidade do presidente entre os habitantes do país, que já foi superior a 80%, caiu para menos de 50% pela primeira vez neste ano.
Críticas provenientes da mídia, no passado impensáveis, são agora constantes. Jornais sérios questionam suas visões políticas; tablóides e televisão enfocam principalmente sua vida privada e a de sua esposa Dagmar, com quem se casou há dois anos. Havel acusa os jornais sensacionalistas de ataques injustos a ele e a sua família. Mas, ao que parece, toda a nação tem aversão a Dagmar. Eles se casaram em janeiro de 1997, menos de um ano após a primeira esposa de Havel, Olga, ter morrido de câncer. Enquanto Olga não gostava de aparecer e não falava sobre seus trabalhos de caridade, Dagmar expõe tudo o que faz; é sempre visível e audível onde quer que esteja. Dezessete anos mais nova do que Havel, a ex-atriz tentou, sem sucesso, fazer com que sua posição de primeira-dama fosse um posto oficial.
Havel, em princípio ultrajado pelas intromissões bisbilhoteiras em sua vida privada, tornou-se filosófico, como demonstrou em sua declaração em reação à última "história contada por quem viu de perto", que foi colocada à venda nas últimas semanas. "A confissão do secretário", escrito pelo ex-secretário de sua esposa, Milos Ryc, dá "uma sensação de identidade perdida", de acordo com Havel. "Você se vê como seu próprio duplo, muito parecido do lado de fora, mas, na verdade muito diferente".
A primeira sondagem sobre sua vida privada foi um livro publicado em 1998, intitulado "Dez dias que sacudiram o castelo", que contava um suposto caso entre Dagmar e Ryc. Já no "As confissões do secretário", Ryc não oferece revelações impressionantes. Seu livro de 200 páginas está repleto de impressões de viagem, especulação política e descrições sarcásticas do dia-a-dia da família. Uma passagem típica descreve Dagmar recebendo um diplomata e sua esposa com seus dois cachorros ao seu lado. "O embaixador, petrificado, derrubou café em seu terno, após Madla (o boxer), ter pulado em suas costas. Sua mulher estava sendo empurrada pelo segundo cão, Sugar. A conversa começou, mas foi interrompida algumas vezes pelo ronco dos cachorros e ocasionalmente por um pum de Madla. Vinte minutos depois o casal foi embora, com baba de cachorro em suas costas".
Nada digno de estrelas, mas o ávido apetite por escândalos faz com que as pessoas adorem este tipo de leitura. "Mal posso esperar para ler o livro", diz Jana Matejkova, enquanto espera por clientes atrás do balcão de sua loja. "A vida no castelo deve ser excitante". À medida em que a vendagem do seu livro aumenta, Ryc tece comentários sobre a dupla imagem de Havel, altamente respeitado no exterior, mas considerado irrelevante pela maioria da população do seu próprio país. "A distância entre como Vaclav Havel é visto no estrangeiro e aqui está crescendo e suas dimensões estão se tornando assustadoras", disse Ryc ao jornal Lidove Noviny.
Ele descreve o presidente como um dinossauro político. "Havel trabalhou toda a sua vida para destruir (o comunismo), mas agora uma atitude construtiva é necessária", diz Ryc. "Este é o verdadeiro problema político de Vaclav Havel".
Havel reconhece sua situação. "Eu venho conduzindo o país a tanto tempo e fui reverenciado por um tempo tão longo que isso tinha que acabar algum dia", disse ele ao jornal Le Figaro no início deste ano.

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