Devastação atinge principais ecossistemas brasileiros
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quinta-feira, 20 de abril de 2000
Por Liana John e Maura Campanili 
São Paulo, 21 (AE) - O declínio dos ecossistemas no Brasil está expresso nos 93% de florestas derrubadas na Mata Atlântica, na rápida degradação do Cerrado, nos 15% da Floresta Amazônica perdidos em apenas três décadas, na falta de água nos grandes centros urbanos do País, que mais possui água doce no mundo.
De acordo com os dados divulgados este mês pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre as décadas de 70 e 90, a Amazônia perdeu 551 mil quilômetros quadrados de florestas. Só em 1998 foram 17.383 quilômetros quadrados, um aumento de 31,4% em relação a 1997 e equivalente a mais de oito vezes a mancha urbana da Região Metropolitana de São Paulo.
No Cerrado, até pouco tempo considerado naturalmente reservado para a expansão agropecuária, as alterações provocadas pelo homem atingem 78,4% da área. A ponto desse ecossistema já figurar, junto com a Mata Atlântica, na relação dos 25 Hotspots mundiais, áreas prioritárias para conservação da biodiversidade, porque extremamente ameaçadas, segundo a Conservation International (CI). Com 44% de espécies de plantas e 30% dos anfíbios endêmicos (que só são encontradas nesse região), o Cerrado é onde a fronteira agrícola caminha em rítmo mais acelerado. A bacia dos rios Araguaia e Tocantins são as mais ameaçadas, com os projetos de hidrovia e dez barragens.
Tudo isso é consequência de um modelo de desenvolvimento econômico, implantado desde a colonização, que deu origem ao "solo descartável", como define João Paulo Capobianco, coordenador do Instituto Socioambiental, ISA. "Embora existam mudanças concretas nesse pensamento arraigado, como a Lei de Crimes Ambientais que desde o ano passado criminaliza a degradação, a única dúvida é se vai dar tempo para reverter a situação", diz Capobianco.
Para a secretária de Coodenação da Amazônia do Ministério do Meio Ambiente, Mary Allegretti, "as políticas ambientais começaram a ser implementadas pelos países desenvolvidos num contexto de escassez de recursos naturais e ocupação territorial consolidada, que não se aplica a países com abundância de recursos e conflitos sobre o direito à propriedade
como o Brasil. Por isso a legislação ambiental brasileira, embora avançada, não consegue a eficácia necessária".
Segundo Allegretti, na Amazônia essa situação começa a mudar com o projeto de criação do Sistema de áreas Protegidas, que será apresentado ao Fundo Ambiental Global, GEF, no próximo dia 7 de maio, em Washington, e pretende preservar 10% da Amazônia em unidades de conservação. Além disso, os ministérios do Meio Ambiente e do Planejamento farão, juntos, uma avaliação socioeconômica e ambiental dos eixos nacionais de integração previstos no Avança Brasil, projeto de grandes obras do Governo Federal. "Pela primeira vez, será feita uma avaliação do efeito do conjunto de obras, com projeções para os próximos 20 anos. Esse estudo proporá não só medidas mitigadoras, mas alternativas no desenho dos projetos e valoração dos recursos ambientais", explica a secretária.
A importância desse tipo de análise pode ser demonstrada por um estudo feito pelo ISA e pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam), mostrando, que somente o asfaltamento de quatro estradas - um trecho da Transamazônica, Cuiabá-Santarém, Humaitá-Manaus e Manaus-Boa Vista -, previsto no Brasil em Ação, poderia implicar o desmatamento de 180 mil quilômetros quadrados na Amazônia, nos próximos 25 a 35 anos.
Também no Cerrado, segundo Glenn Switkes, diretor da International Rivers Network para a América Latina, se forem realizados os projetos de hidrovia e barragens previstos haverá um aumento da expansão da fronteira agrícola da soja, resultando em êxodo rural, contaminação por agrotóxicos e diminuição das áreas úmidas no rio das Mortes e Ilha do Bananal e na destruição do berçário de várias espécies.
Estudos já demonstraram também o perigo de alterar o fluxo das águas no Pantanal e praticamente obrigaram o governo a engavetar o projeto da hidrovia Paraguai-Paraná. No entanto, a caça ilegal, o assoreamento do rio Taquari pela agricultura no Cerrado, a contaminação por mercúrio dos garimpos, a pesca predatória, as drenagens para plantio de pastagens exóticas e a superpopulação de gado já estão afetando o regime de águas na região.


