Deutsche diz que Brasil está sem opção para dívida interna
São Paulo, 4 (AE) - O Deutsche Bank afirma em seu último relatório que o Brasil está ficando sem opções diante do rápido crescimento da dívida interna causado pela alta dos juros, acelerada após a desvalorização. Segundo o banco, cresceram os riscos de hiperinflação ou de uma reestruturação da dívida. Embora considere cedo para prever se haverá reestruturação da dívida, o documento explora suas possíveis formas, ressaltando que os efeitos para o sistema bancário seriam "muito negativos". O relatório, assinado pelos estrategistas Jane Heap, de Nova York, e Geoffrey Dennis, de Londres, foi divulgado para os clientes no último dia 31, antes portanto das mudanças no Banco Central, anunciadas na terça-feira. Em São Paulo, o economista-chefe Dalton Gardiman afirmou que uma reestruturação da dívida seria uma "não-solução". "Sem corrigir os desequilíbrios fiscais, a reestruturação pela reestruturação não faz sentido", disse. O relatório dos estrategistas Heap e Dennis diz que, ao contrário da Rússia, a maior parte do estoque da dívida no Brasil é doméstica - R$ 330 bi (dos quais 25% dolarizados e 50% a 60% com juros variáveis), diante de US$ 89 bi da dívida externa. O documento estima que cada ponto percentual a mais no juro custa ao governo US$ 2 bi adicionais em financiamento da dívida por ano. Os títulos federais domésticos somam cerca de R$ 270 bi. O vencimento, em média, da dívida é no curto prazo, sete meses, acrescenta o relatório. Os bancos detêm 45% da dívida doméstica federal diretamente e admistram fundos de renda fixa que detêm outros 40%, prossegue o relatório. O governo poderia potencialmente adiar a reestruturação, negociando diretamente com os bancos. Mas, se for forçado a manter os juros altos, será difícil para o governo evitar medidas mais dramáticas. Neste caso, segundo o Deutsche, um plano semelhante ao argentino Bonex 89, seria o mais provável. Depois da experiência russa, o Deutsche Bank acredita que o nem o FMI nem o G7 permitiriam uma reestruturação da dívida externa.
Segundo o relatório, uma grande parcela dos ativos dos bancos, cerca de 40% do sistema, estão na forma de títulos do Tesouro. Desta forma, quase metade dos ativos bancários seriam afetados se o governo impusesse uma reestruturação.
Apenas para ilustrar, o documento supõe que o governo troque papéis de 30 dias, que atualmente pagam a taxa Selic de 37%, por papéis de 2 anos que rendam 10%. Para não afundarem, os bancos tentariam repassar os custos aos depositantes, afirma o documento. Os depósitos representam aproximadamente 38% dos passivos, enquanto os depósitos interbancários representam 14%. Os depósitos à vista, que representam parte significativa do M1, só seriam tocados em casos extremos, opina o banco. Os depósitos a prazo seriam os prováveis candidatos à reestruturação. No entanto, o percentual destes depósitos é uma parte significativamente pequena das posições do Tesouro no sistema. Os depósitos interbancários seriam um alvo adicional. A soma de ambos, no entanto, não seria suficiente para a reestruturação da dívida federal, diz o banco, que não descarta a possibilidade de a poupança e os depósitos à vista também serem atingidos.





