Deutsche Bank quer liderar nova emissão de bônus globais do Brasil
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domingo, 25 de abril de 1999
Por Paulo Monteiro 
São Paulo, 26 (AE) - O Deutsche Bank confirmou interesse em liderar uma eventual nova emissão de títulos da dívida (bonds) em conjunto com o governo brasileiro. Porém, o segundo homem na cadeia de comando do banco, Norbert Walter, negou qualquer movimento nesse sentido no momento.
Em entrevista exclusiva à AGÊNCIA ESTADO, o economista-chefe do Deutsche preferiu não dar maiores detalhes sobre o assunto, embora o Brasil ainda espere emitir mais US$ 3 bilhões em bônus até julho. "É óbvio que nós adoraríamos, antes de tudo somos uma instituição financeira interessada em fazer bons negócios", disse Walter após uma conversa com o ministro Pedro Malan na sexta-feira, ao fim de uma visita pela América Latina que teve escala na Argentina e ponto final no Brasil.
"Não sabemos ainda se vai funcionar, mas nos achamos capacitados para isso e estamos considerando a possibilidade a longo prazo", afirmou o economista, que negou ter conversado com Malan a respeito do assunto. "Éramos apenas dois economistas conversando", disse. Para Walter, economista especializado em mercados de juros e câmbio, o momento ainda não é apropriado para liderar um lançamento de títulos, principalmente depois do relatório do banco distribuído à imprensa logo após a desvalorização do real em meados de janeiro.
"Estamos ainda um pouco intimidados em comunicar as intenções do Deutsche depois que a percepção sobre o banco ficou mais dominada pelos nossos relatórios do que pelas nossas ações", disse. Na época, entre outras previsões desastrosas, o banco não descartava o anúncio da moratória da dívida pelo governo brasileiro e afirmava que o país poderia voltar a conviver com o fantasma da hiperinflação.
O economista chefe do banco, entretanto, defendeu-se dizendo que as ações da instituição desde então têm sido construtivas. "Como é de conhecimento geral nos círculos internos do governo e do Banco Central", afirma, ele cita a apoio do banco ao governo brasileiro através da extensão de suas próprias linhas de crédito ao Brasil e da atuação do banco que serviu de intermediador junto à instituições financeiras européias para que fizessem o mesmo.
Longe de ser a única instituição financeira internacional que previu a volta do caos econômico após a inesperada desvalorização do real, o economista concordou que o Deutsche Bank teve sua imagem "inequivocadamente" desgastada com o episódio. "Meus colegas não me pediram conselho, e essas primeiras previsões estavam equivocadas," admitiu o economista-chefe.
"A troca do sistema de âncora cambial pela da flutuação livre foi realmente um choque para o mercado, que levou um tempo para absorver as mudanças", explicou. "As autoridades brasileiras também levaram um certo tempo para com confiança (ao mercado) que a cruzada antiinflacionária continuava inquestionavelmente intacta."
Massagear o mercado - O economista defende que para qualquer mudança drástica de rumo na economia seja construído um "muro de bons argumentos". Segundo ele, é preciso "massagear" o mercado antecipadamente para evitar reações equivocadas.
Walter sugere ainda que os países em mudança se inspirem nas ações de duas instituições mestres em comunicação com o mercado: o banco central da Alemanha, o Bundesbank, e dos EUA, o Federal Reserve. "Credibilidade é consequência do resultado da intonação ou da linguagem corporal em vez de meras palavras abstratas."
Números revisados - De acordo com conversas mantidas com membros do mercado financeiro e representantes do governo, Walter acredita que a taxa de câmbio deva mesmo se estabilizar entre R$ 1.60/R$ 1.85 até o final do ano, com uma depreciação em torno de 5% no ano 2000. "Eu ouvi um número significativo de pessoas dizendo que o real não deve ficar acima de R$ 1,60, e não eram os membros do governo, o que soa bastante interessante para mim".
Considerando que o real se estabilize nesse patamar, o economista prevê uma inflação na casa dos 10% em 1999, "por causa do repique no início do ano", com uma redução para 5% no ano 2000. Os juros devem continuar caindo até a casa dos 20% nesse ano e se estabilizar em 15% no próximo. "Mas se o real ficar em R$ 2,00," alerta o economista, "aí será um jogo completamente diferente".
Recuperação do real- Walter explicou que o quadro econômico do Brasil começou a melhorar depois de três ações cruciais: a votação da CPMF no Congresso, o controle da inflação
e a redução gradual dos juros, que ainda são "estratosféricos", e devem continuar caindo.
Entretanto, para que o plano do governo de recuperação do real continue funcionando, fatores externos que podem afetar a economia mundial, devem ser considerados, como, por exemplo, a redução do crescimento dos países asiáticos, a guerra na Iugoslávia e as eleições parlamentares desse ano na Rússia.
Se tudo correr bem, "e o governo continuar levando a sério seu programa de austeridade fiscal", o economista prevê um crescimento econômico negativo entre 2% e 3% em 1999 - melhor do que os 4% negativos previstos pelo governo - e a volta do crescimento em até 4% no ano que vem.
"Eu divido a opinião daqueles que acreditam no bom comportamento do governo e dos Estados no sentido de evitar a eclosão de novas crises", disse. Para o economista, o País não pode parar por aqui e deve continuar fazendo as reformas necessárias para diminuir a participação do Estado na economia.
Ele espera que a discussão sobre o salário mínimo que deve acontecer no Congresso no próximo mês seja despolitizada, e que o governo continue a fazer as reformas necessárias para o bom andamento da economia, como por exemplo a reforma da previdência, para tirar o peso das costas do governo.
A locomotiva da América Latina - Segundo o economista chefe, as perspectivas internacionais para os mercados emergentes estão melhorando e o Brasil só tem a se beneficiar com isso.
O bom desempenho dos EUA, que deve continuar crescendo ao contrário do que muitos prevêem, acredita Walter, também trará consequências positivas para os mercados vizinhos que devem continuar recebendo investimentos diretos daquele que o economista chama de "a locomotiva da América Latina".


