Detetive diz que libertou traficantes a pedido de deputado
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domingo, 01 de agosto de 1999
Por Hugo Marques (especial para a AE) 
Brasília, 02 (AE) - O detetive Francisco Raimundo Custódio Pessoa vai contar à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico que libertou vários traficantes de drogas no Acre, a pedido do deputado Hildebrando Pascoal (PFL), nos três anos em que trabalhou na 6.ª Delegacia de Polícia de Rio Branco, de onde saiu no fim do ano passado. O detetive, que vai depor na CPI nos próximos dias, também deverá contar que Hildebrando comprou votos na última campanha eleitoral por R$ 200 cada.
Seu depoimento deve complicar ainda mais a situação de Hildebrando na CPI, que apura acusações de ligação do deputado com o tráfico de armas e drogas e o esquadrão da morte no Acre. Segundo relatório do Conselho de Defesa dos Direitos da Pesssoa Humana, do Acre, há 101 inquéritos de assassinato, arquivados sem conclusão, envolvendo-o como mandante.
No fim de junho, antes do recesso, a CPI chegou a apresentar pedido de cassação do deputado, a partir dos depoimentos contra ele. Este mês a Corregedoria da Casa vai decidir se envia o pedido à Mesa Diretora. Além disso, a Comissão de Constituição e Justiça marcou para quarta-feira (04) o depoimento de Hildebrando. O Supremo Tribunal Federal pediu licença à Câmara para processá-lo, sob acusação de porte ilegal de arma e desacato à autoridade em outubro, após execução de um mandado de busca e apreensão em sua casa.
Hoje, Pessoa, de 30 anos, contou que foi ameaçado de morte e por isso fugiu do Acre e não vê os três filhos desde o início do ano. Ele acrescentou que já entregou à Polícia Federal a lista de nomes dos traficantes do Acre. Estes são os principais trechos de sua entrevista: Agência Estado - O senhor disse que ficou conhecendo os esquemas do tráficos de drogas na 6.ª Delegacia? Francisco Raimundo Custódio Pessoa - Isso, o tráfico de drogas com o Hildebrando, o jeito que o coronel fazia. A gente prendia traficante e ele mandava soltar. Soltei muito, pegava a chave e ia lá. O delegado tinha muita confiança em mim. "Olha, o coronel ligou, solta fulano." Eu ia lá e pegava a chave e soltava. AE - O deputado Hildebrando Pascoal ligava direto na delegacia? Pessoa - Direto, direto. Eu ligava para o celular dele, ele já me chamava, eu pegava a chave e soltava os traficantes. Soltei traficantes que nem o Caniço, o Cangaceiro, só traficante perigoso. Cara que matava também, gente que matava pobre de colono. O Hildebrando mandava só um cara ir lá, um capitão dele ia lá e falava com o delegado e liberava o cara. AE - O deputado controlava o tráfico de drogas e o sargento Alex cobrava propinas de traficantes? Pessoa - Sei que o Alex cobrava propinas de todas as "bocadas"
para poder funcionar as "bocadas", ali no Morro do Marrosa. O sargento Alex é braço direito do Hildebrando Pascoal. AE - Hildebrando chegou a comprar votos? Você presenciou essa história? Pessoa - Presenciei, até do meu sogro. Tinha uma parente dele, que não quero falar o nome, que pode correr risco também, falou que o Hildebrando comprou por R$ 200 os votos deles lá. E tinha preso na penal. A família do preso ia lá e ele falava: "Arruma tantos votos que eu solto fulano." Isso ele fazia também. AE - Isso nas eleições passadas, para deputado? Pessoa - Nas eleições agora. E antes ele fazia isso também. Soltava armas também. A gente prendia as armas e ele telefonava para o delegado Bayma (Carlos Alberto da Costa Bayma) e mandava soltar a arma do cara e a gente levava lá, de cabo eleitoral dele. Levei duas armas, uma 20 e uma 28 (calibre) lá para a casa do Hildebrando. Eu e o delegado Bayma. E quando não, ele assinava um bilhetinho e o delegado mandava liberar a arma, a mando do coronel. AE - O deputado Hildebrando entregava para o dono, em troca de voto? Pessoa - Isso. Entregava para o dono, em troca de votos. Já na campanha para deputado, no ano passado. AE - Hildebrando realmente manda matar? Pessoa - Quando mataram o irmão dele, morreu muita gente. Muita gente amanhecia morta na estrada. AE - O deputado Hildebrando chegou a soltar traficantes que estavam presos para buscar droga e vender dentro do presídio? Pessoa - Conheço um traficante que foi solto pelo coronel, o Boró. Ele conversou comigo e falou que o melhor tempo foi quando estava no presídio. Chegou a vender 50 "paradas" (pasta-base) por dia lá. Ele saía e passava a droga para policiais, que distribuíam lá dentro. AE - É verdade que tem gente do Exército e das Polícias Militar e Civil envolvida com o tráfico de drogas no Acre? Pessoa - Conheço soldado do Exército, vários PMs e policiais civis. Passei para a Polícia Federal muitos nomes.


