Rio, 28 (AE) - Depois de quase 20 horas de rebelião, 115 detentos da 19ª Delegacia de Polícia (Tijuca) foram transferidos hoje, às 14h20, para a Casa de Custódia de Bangu, recentemente criada onde funcionava o Presídio Muniz Sodré. Os presos transferidos se diziam ligados à organização criminosa Comando Vermelho. Mais 52 detentos de outra facção, a Amigos dos Amigos (Ada), permanecerão na delegacia até quarta-feira, quando deverão ser removidos.
Após uma tentativa frustrada de fuga, os detentos fizeram cinco reféns - que sofreram ameaças de morte - e então exigiram a transferência. Entre os reféns, estava o carcereiro Paulo Roberto Costa e um preso "faxina" (considerado de confiança dos policiais), o ex-policial militar Marcos Vidolim. Os outros eram três presos que trabalhavam servindo comida nos corredores das celas. Os quatro detentos rendidos chegaram a apanhar, ficaram feridos e foram atendidos por médicos do Corpo de Bombeiros.
A 19ª DP terá de ser reformada porque, das sete celas, seis foram destruídas pelos presos rebelados, que estavam armados com barras de ferro. "O xadrez vai sofrer obras para funcionar como carceragem até que os programas Delegacia Legal e Casas de Custódio esteja concluído", explicou o chefe da Polícia Civil, Carlos Alberto dOliveira. A solução para a rebelião, que estourou após uma tentativa frustada de fuga, estava sendo negociada desde a noite de sábado pelo delegado Aloisio Russo, que tratava diretamente com os presos. Oliveira e a sub-chefe da polícia, delegada Marta Rocha, cuidaram da transferência. "O governo indicou desde o começo que a negociação era a única solução", afirmou Russo.
A delegacia tem capacidade para abrigar entre 50 e 60 presos. O delegado lembrou o problema da superlotação das delegacias, "anterior a esse governo", e disse que o governo atual está tomando providências. "Nunca se cumpriu a lei de manter detentos e reclusos separados", afirmou.
A negociação demorou porque os presos fizeram exigências "absurdas", segundo Russo, como a presença do governador Anthony Garotinho e do "secretário municipal do Estado" (sic), além da corregedora da Polícia Civil e ex-diretora do Departamento Especial do Sistema Penitenciário (Desipe), Julita Lemgruber. Eles exigiram, ainda, a presença da imprensa, celulares e rádios. "Mas nunca vamos atender a exigências para fuga", frisou o chefe da Polícia Civil.
"Tivemos dificuldade para negociar porque o preso brasileiro não tem QI ou qualquer tipo de organização", disse Russo. "A massa carcerária é analfabeta ou semi-analfabeta, e virou procedimento normal os presos dizerem que são filiados à facção A ou B". O delegado contou que não havia liderança definida para negociar com a polícia. Segundo policiais, alguns dos presos que incitaram a rebelião de sábado estavam detidos na 14ª DP (Leblon), onde houve uma tentativa de fuga em massa há cerca de dois meses.
Segundo o coordenador do Sistema de Controle de Presos do Rio, delegado Carlos Dantas, 23 das 40 carceragens das delegacias da cidade do Rio já foram desativadas, e 1.500 detentos já foram transferidos para as duas Casas de Custódia. Outras três já estão em projeto.

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