Detentos produzem 300 mil mudas de araucária por ano
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segunda-feira, 28 de julho de 2008
Rafael Urban<BR>Equipe da Folha 
Curitiba- Antonio Aparecido Gaudêncio, 47 anos, acorda às 6 da manhã, liga as bombas d'água que alimentam as 100 mil mudas de Araucária que ele e outros oito detentos plantaram recentemente. Gaudêncio é um dos 1.350 presos em regime semi-aberto da Colônia Penal Agrícola de Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Lá não há muros, apenas cercas. Há nove meses, ele participa do Projeto Gralha Azul que, em quatro anos, produziu um milhão e 200 mil mudas da planta. O destino para elas é diverso: proprietários que ultrapassaram a área limite de desmatamento, prefeituras em busca de criação de áreas de bosque ou mesmo donos de pequenas propriedades com a intenção de desenvolver a mata ciliar ao redor de rios.
Para o criador do projeto, Carlos Antonio Gusso, 67 anos, o objetivo é ajudar a restaurar a floresta de Araucárias no Paraná - da qual, segundo dados de pesquisa de 2000, do Programa de Proteção à Diversidade (Probio Araucária), só resta 0,8% em estágio avançado de regeneração, não havendo mais floresta primária. Gusso garante não ter motivações comerciais e que cortar uma árvore da espécie em sua fazenda na cidade de Araucária, que também fica na RMC, ''seria como arrancar um dedo''.
Para as 300 mil mudas produzidas anualmente, ele investe, como um projeto social de sua empresa, a Risotolândia Refeições Coletivas, R$ 350 mil. É uma parceria com a Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado, que ''entra com a área''. No ano passado, 200 mil mudas alcançaram ''um lar'' e parte das 100 mil restantes acabaram sendo plantadas na própria colônia penal, uma área com 322 alqueres.
Cada um dos presos participantes, como Gaudêncio, recebe por mês três quartos de salário mínimo (R$ 311,25). A cada 30 dias trabalhados, eles têm um abono de dez em sua pena. Hoje, 890 deles estão envolvidos em projetos que tem participação de 15 empresas diferentes, e que vão desde a construção civil ao plantio das árvores. Lauro Valeixo, o diretor da colônia, já foi o responsável pelo presídio do Ahú, hoje fechado. ''A diferença é que aqui o sujeito está solto e com uma enxada na mão. Quanto ao trabalho e às atividades, elas são muito importantes, pois mantêm as mentes ocupadas.'' As possibilidades são múltiplas: de aulas diárias de capoeira a sessões de yoga, em parceria com uma faculdade da Capital, nas sextas à noite.
Gaudêncio vai dormir depois da checagem, que passa às 21h30, para ver se ele e o companheiro de cela realmente estão na casa que fica em frente à plantação. Ele é natural de Sorocaba e foi preso ao praticar um assalto em Curitiba em 1999. Tem mais seis meses de pena. Quer trabalhar na chácara de sua irmã quando deixar a colônia. ''Acredito que a sociedade tem que participar e acreditar. Boa parte dos presos tem condições de recuperação'', comenta Valeixo, o diretor da colônia.
Serviço: Os interessados em obter mudas devem entrar em contato com José Adão Batisteti pelo telefone (41) 3641-3131.


