Londrina - O agricultor N.S.O., de 50 anos, já pode retomar os estudos no Centro de Educação Estadual para Jovens e Adultos (Ceebja) Professor Manoel Machado. Ele estava cursando o 5º ano do Ensino Fundamental, mas parou porque as letras dos livros lhe pareciam cada vez mais miúdas ao seu alcance. Embaçadas. Com o óculos de lente bifocal que ganhou ontem, o agricultor prometeu que vai voltar à escola e iniciar algum trabalho. "Agora ficou bom. Faz tempo que eu estava precisando, sem óculos não tinha condições de ler nada", afirmou.
A escola de N.S.O. fica na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) 2, onde ele cumpre pena há dois anos por homicídio. O agricultor é um dos 31 detentos da unidade que ganharam ontem armações e lentes novas, graças a uma parceria firmada pela Divisão de Ocupação e Qualificação (DIOQ) da PEL 2 com o Hospital de Olhos de Londrina (Hoftalon), Sindicato de Óticas de Londrina (Sindióticas) e Senac. A entrega foi feita em uma das salas de aula da escola penitenciária.
Todos os contemplados haviam passado por exames clínicos em dois mutirões realizados por uma equipe de oftalmologistas do Hoftalon, na própria PEL 2, em setembro do ano passado e em março deste ano. Dos mais de 100 detentos que fizeram os testes, 42 foram diagnosticados com algum tipo de deficiência visual. Os 31 que receberam os pares de óculos ontem são os que continuam cumprindo pena na penitenciária.
"Sempre tivemos essa demanda aqui dentro, e em muitos casos é difícil o penitenciado conseguir uma consulta porque tem que agendar via SUS e a gente sabe que é complicado. Começamos a notar que alguns detentos estavam apresentando dificuldades para estudar e nos canteiros de trabalho. Aí fomos atrás de uma parceria para fazer esses mutirões", explicou a chefe do DIOQ, Aparecida Alves da Silva. A divisão é responsável também pelos canteiros de trabalho da penitenciária (veja box), dos quais N.S.O. pretende fazer parte. O Hoftalon comprou a ideia e entrou em contato com o Sindióticas para providenciar a fabricação dos óculos. O sindicato mantém um curso de formação de técnico em ótica em parceria com o Senac.
Cumprindo pena há oito anos por assalto à mão armada, o operador de máquinas P.C.N., de 50 anos, usará o óculos para poder enxergar de perto, já que tem 1,5 grau de hipermetropia. Mas ele enxerga longe. "Vai de cada um querer mudar. Eu espero cumprir minha pena e voltar a trabalhar, não quero mais saber desse lugar, não", afirmou o detento, que cursa o 6º ano do Fundamental no Ceebja. Ele foi transferido para a PEL 2 depois de fugir da Colônia Penal Agrícola, em Piraquara (Região Metropolitana de Curitiba).
A gerente de responsabilidade social do Hoftalon, Daniela Sikorski, disse que a missão do hospital "é levar o benefício do avanço da medicina para qualquer pessoa" e que a população carcerária se insere nesse objetivo. De acordo com o presidente do Sindióticas do Paraná, José Alberto Pereira, a ação desenvolvida com a PEL 2 é o embrião de um projeto social que o sindicato pretende desenvolver juntamente com o Senac com foco no público adulto. A entidade, observou ele, já desenvolve uma ação semelhante com alunos de escolas municipais.

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