Brasília, 13 (AE) - Dólar mais caro significa mais lucro para alguns exportadores agrícolas, mas também faz subir os custos e está complicando a vida de muitos produtores. A mudança cambial, defendida com entusiasmo por muitos agricultores e economistas nos últimos quatro anos, tem criado um ambiente de guerra na cadeia do agribusiness: há conflitos entre agricultores, fornecedores de insumos e processadores de matérias-primas, principalmente entre a indústria têxtil e os plantadores de algodão.
Os conflitos têm convergido para os gabinetes do Ministério da Agricultura. A indústria têxtil pede a liberação total das importações de algodão. Os produtores protestam. Um grupo de representantes do setor esteve em Brasília na quinta-feira, para pressionar contra a reabertura completa do mercado. O Ministério da Agricultura apóia os plantadores. A produção estimada para o ano é de 480 mil toneladas, 16,5% maior que a de 1998, mas o consumo previsto é de cerca de 700 mil toneladas.
O Centro-Sul é autosuficiente e a importação concentra-se no Nordeste, cuja indústria é responsável por 40% do consumo. O Ceará consome 120 mil toneladas de algodão por ano e a importação é favorecida pelo governo do Estado, com o diferimento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e de Serviços (ICMS), lembra o diretor de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Benedito Rosa do Espírito Santo.
A produção nacional, depois de arrasada pela concorrência estrangeira, voltou a crescer nos últimos três anos
graças à modernização tecnológica no Centro-Oeste. A alíquota do Imposto de Importação voltou de zero a 8%, por pressão dos vizinhos do Mercosul. Essa é a tarifa externa comum.
"Não há motivo para diminuir a alíquota, porque o Mercosul terá este ano um excedente de 105 mil toneladas em relação ao consumo", diz o funcionário da Agricultura. Para estimular a compra e a estocagem do produto nacional, acrescenta
a indústria pode utilizar o financiamento agrícola, o EGF (Empréstimo do Governo Federal), com juros de 8,75% ao ano. Também há uma linha de crédito o Banco Nacional do Desevolvimento Econômico e Social (BNDES), de R$ 400 milhões, aberta no ano passado.
Estão complicadas também as relações entre agricultores e fornecedores de adubos e defensivos. A indústria reclama do efeito da depreciação cambial, que encareceu a matéria-prima importada. Ao mesmo tempo, tenta manter seus preços indexados, oferecendo vendas a prazo com preço variável segundo o dólar - mas só para cima, segundo os agricultores. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) calculou o efeito da variação cambial nos preços de adubos e defensivos e seu impacto nos custos operacionais de quatro produtos. A base de comparação é o conjunto de preços no tempo do dólar a R$ 1,21. No caso do algodão, o custo operacional cresce 19,5% com o dólar a R$ 1,60, aumenta 29,5% com a cotação de R$ 1,80 e 39,3%, se a paridade ficar em R$ 2,00. O impacto calculado para os outros produtos, no caso de cada uma das três cotações, é o seguinte: milho, 16%, 24,4% e 32,5%; soja, 19,2%, 29,1% e 39,1%; trigo, 12,5%, 18,9% e 25,3%.
O impacto nos custos neutraliza parte dos benefícios que a desvalorização cambial pode proporcionar aos produtores de produtos exportáveis. Além disso, a expectativa de maior oferta derrubou os preços internacionais em mercados como os da soja, café e açúcar, em que o Brasil tem presença muito importante.
O efeito da depreciação tem sido diferente nos vários segmentos da agricultura. No mercado nacional, segmentos abastecidos pela produção interna e pela importação, os preços têm aumentado, com benefício para produtores de cebola, alho, cevada cervejeira e batata.
Um terceiro segmento, formado principalmente por plantadores de hortigranjeiros, milho e mandioca, tem sido afetado por aumento de custos sem aumento de preços dos produtos. Exportadores de carne bovina e de aves de modo geral receberam bem a desvalorização cambial. Neste ano, segundo suas projeções, as vendas ao exterior deverão crescer significativamente. Produtores de aves falam em aumento de até 30%. No Ministério da Agricultura a estimativa fica em 15%, um número ainda muito bom.

mockup