Agência France Presse
De Coroa Vermelha
A notícia da destruição de uma aldeia pataxó por um grupo de pistoleiros aumentou ontem a indignação dos índios que estão em Coroa Vermelha (nordeste do Brasil) em um encontro de 2.500 indígenas brasileiros. Coincidindo ironicamente com o ‘‘Dia do Índio’’, a destruição foi citada pelos líderes índios como exemplo da brutalidade de que são vítimas há 500 anos.
Segundo os líderes pataxós – grupo indígena que vive na região do sul do Estado da Bahia – uma aldeia situada a cerca de 200 km de Coroa Vermelha foi destruída na terça-feira por um grupo de 30 homens armados. Os quarenta índios que viviam na aldeia fugiram. Alguns foram aparecendo durante a noite em outras aldeias, depois de caminhar horas pela selva. Mas pelo menos nove pessoas, entre elas uma mãe com vários filhos, ainda estavam perdidas na selva.
‘‘A brutalidade contra nós continua igual, e o governo faz vista grossa a esses atos violentos. Mas tudo isso só estimula os índios a serem mais fortes e lutarem para conseguir seus direitos’’, disse um dos líderes pataxós presentes à conferência indígena.
A aldeia destruída fica ao pé do Monte Pascoal, terra sagrada dos pataxós. Ela foi criada depois de 2 de abril, quando mais de 100 índios invadiram uma fazenda. Na região, considerada terra indígena legalmente não demarcada, ocorrem invasões há vários meses. Segundo a Procuradoria-Geral da República e a Fundação Nacional do Índio (Funai), que sobrevoaram o lugar de helicóptero, houve uma ‘‘violenta desocupação da aldeia’’, que está sendo investigada pela Polícia Federal. ‘‘Não há provas de que haja índios desaparecidos, feridos ou assassinados, só temos certeza de que uma aldeia foi destruída e que os índios fugiram aterrorizados’’, disse o procurador-geral do Estado, Paulo Fontes.
Os mais de 500 pataxós que participaram da conferência vestiram roupas tradicionais e pintaram os corpos com vermelho e preto, as cores da guerra, antes de se reunirem em torno da cruz de madeira que marca, em Coroa Vermelha, o lugar da primeira missa celebrada no Brasil, em 26 de abril de 1500.
A destruição da aldeia mudou a programação do encontro indígena. Eles pretendiam discutir a questão ‘‘500 anos, de quê?’’ Para os chefes pataxós, a violência contra a aldeia é a resposta.Ato de pistoleiros foi lembrado no Dia do Índio
Scorza/Agência France PresseScorza/Agência France PresseCORES DA GUERRALideranças reunidas no Nordeste citaram a destruição como exemplo da brutalidade de que são vítimas há 500 anos; a aldeia atacada fica ao pé do Monte Pascoal, terra sagrada dos pataxós que, ontem, pintaram seus corpos de vermelho e preto; ao lado cacique mergulha no mar

mockup