Brasília, 23 (AE) - O desrespeito à hierarquia estimulado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso inviabilizou o economista Andrea Calabi no comando do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Desfecho semelhante teve a rápida ascensão e queda do ex-presidente indicado do Banco Central Francisco Lopes que, apoiado diretamente por Fernando Henrique, também infringiu os princípios da hierarquia ao atuar com independência em relação ao seu superior imediato, o ministro da Fazenda, Pedro Malan.
"Não se pode condenar o Calabi pelo excesso de autonomia porque foi o presidente que lhe deu a condição de ministeriável e encomendou tarefas próprias de um ministro de Estado", comentou hoje um integrante da equipe econômica, próximo do ex-presidente do BNDES.
Assim como Chico Lopes, Calabi recebeu diretamente do presidente da República a tarefa de formular uma política de apoio à empresa nacional. Lopes, ainda na condição de diretor de Política Monetária do Banco Central, então dirigido por Gustavo Franco, foi incumbido pelo presidente de estudar mudanças na política cambial. Com um agravante: nem Franco, nem Malan, concordavam com a mudança e Fernando Henrique tinha ciência do fato.
Quando a decisão de mudança foi tomada, o relacionamento entre Malan e Franco com Lopes tornou-se impossível, levando os dois últimos a deixar o governo num episódio que desgastou a autoridade presidencial e também do ministro da Fazenda.
Exatamente o mesmo quadro se formou entre Calabi e seu superior hierárquico, Alcides Tápias. Ao tomar conhecimento das tarefas encomendadas a seu subordinado, típicas de formulação de políticas - competência dos ministros e não de seus operadores -
o ministro sentiu-se crescentemente incomodado. "Calabi era mais ministro do que Tápias", comentou um auxiliar próximo do ministro. A percepção incomodou tanto que Tápias proibiu todos os auxiliares de falarem com a imprensa.
A condição de "ministeriável" de Calabi, como lembram alguns amigos no governo, vem desde o governo Sarney (1987). Calabi, então secretário da recém-criada Secretaria do Tesouro, foi cotado para substituir João Sayad no Planejamento e, depois, Dilson Funaro na pasta da Fazenda. Ambos deixaram o governo e o secretário do Tesouro acabou demitido sem alçar à condição de ministro.
Já no governo Fernando Henrique, Calabi também chegou perto de substituir José Serra no Planejamento, quando este saiu para concorrer à prefeitura de São Paulo. O presidente, com apoio ao tucanato, escolheu Antônio Kandir. A saída de Clóvis Carvalho do Ministério do Desenvolvimento, no ano passado, abriu a terceira oportunidade de Calabi tornar-se ministro. Sua ligação com Serra custou-lhe opositores fortes, entre eles Pedro Malan. Clóvis saiu e, meses depois, Calabi deixou o governo mais uma vez.

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