O Nordeste tem hoje, cerca de 21 bilhões de metros cúbicos de água armazenados em milhares de açudes, reservatórios e barragens, mal aproveitados porque pelo menos 80% desse total não estão ligados a nenhum sistema de distribuição. O volume é suficiente para abastecer todos os nordestinos durante anos, mesmo sem chuvas. Um açude de 60 mil metros cúbicos é suficiente para as necessidades anuais de 1,6 mil pessoas. O mesmo açude permite a irrigação de dez mil hectares, por um ano.
A maioria dos reservatórios foi construida apenas para captar a água e não se fizeram obras complementares para o uso doméstico ou nas lavouras. ‘‘Temos que movimentar toda essa água armazenada no Nordeste’’, afirma o secretário de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, Fernando Rodrigues. Ele comenta que alguns reservatórios, mesmo construidos há mais de meio século, só começaram a servir plenamente para o abastecimento há dois ou três anos.
‘‘A barragem Armando Ribeiro Gonçalves, que hoje atende 80% do Rio Grande do Norte, só nos dois últimos anos, depois de 13 anos de inauguração, começou a distribuir água para a população’’, diz a agrônoma Fátima Rego, do governo do Rio Grande do Norte. ‘‘Antes, a barragem servia apenas para irrigação, e a água, que estava sendo subutilizada, estava se evaporando’’, acrescenta.
Só agora, depois de quase toda a região entrar em estado de emergência por causa da seca, afetando dez milhões de pessoas, o governo federal começou a avaliar exatamente quantos açudes, poços, reservatórios e barragens estão condições ideais de fornecer água no Nordeste. ‘‘Estamos identificando toda a água existente na região e sua qualidade’’, diz Rodrigues. ‘‘Mas já sabemos que alguns açudes estão sem condições de uso’’, acrescenta.
Construidos sem planejamento ou para atender a interesses de políticos em campanha eleitoral, centenas de açudes distribuidos pelo sertão nordestino são rasos e nunca tiveram condições de possibilitar a distribuição de água para os municípios. Um desses açudes sem rede de distribuição é o de Soledade, com 64 anos, hoje um pequeno deserto à beira da estrada que liga a cidade à Campina Grande.
Os estados nordestinos vivem, nos últimos oito meses, em constante alerta. A Paraíba tem só 35% da água necessária para abastecer o Estado. ‘‘Se não chover, a água acaba em três meses’’, diz Marcone Paiva, assessor da Companhia de Água e Esgoto do Estado (Cagepa). As centenas de poços que vêm sendo abertos apresentam um alto índice de salinização.
No Rio Grande do Norte a falta de água já atinge 75 dos 176 municípios do Estado. O governo do Estado monitora os 42 grandes açudes, para evitar que cheguem ao chamado ‘‘volume morto’’, quando a queda no nível de água compromete sua qualidade e impede o uso humano. ‘‘Três deles já estão morrendo, porque a situação é crítica’’, diz o secretário-adjunto de Recursos Hídricos do Estado, Eurico Alecrim.
‘‘Por falta de planejamento dos governantes, muitas obras foram feitas sem utilidade’’, afirma o assessor da Secretaria de Ciência e Tecnologia de Pernambuco, Manuel Silvio Campelo, doutor em recursos hídricos e funcionário aposentado da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). O problema mais grave em Pernambuco está na região de Afogados da Ingazeira. ‘‘A reserva de água vai até setembro, e, se não chover até essa data, a próxima chuva só deve vir em maio do ano que vem’’.
‘‘Muitas barragens no Ceará estão se evaporando, sem serem utilizadas’’, acrescenta Campelo.

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