Maurilo ClaretoConfrontoPoliciais militares escondem-se atrás de kombis para se proteger das pedras
atiradas pelos sem-teto SÃO PAULO - Um confronto entre 150 soldados da PM e um grupo de sem-teto, durante uma reintegração de posse na zona leste, causou a morte de três pessoas ontem cedo, segundo informações da Polícia Militar. Os três sem-teto mortos são Crispim José da Silva, de 25 anos, que levou um tiro na cabeça, Jurandir da Silva, de 29 e Geraci Reis de Moraes, de 42 anos. De acordo com a PM, 20 policiais teriam sofrido ferimentos leves. O tiroteio começou por volta das 7 horas entre a polícia e os invasores, que tentavam resistir à desocupação. A reintegração de posse foi suspensa ainda pela manhã e os policiais militares deixaram o local.
O metalúrgico Crispim José da Silva, um dos mortos durante a operação de reintegração de posse dos prédios da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) não morava no local. ‘‘Ele veio só para me ajudar’’, afirmou sua irmã, a empregada doméstica Zenaide Silva Souza, de 32 anos.
Ao acordar ontem de manhã, o pedreiro Jurandir da Silva pretendia deixar o apartamento onde vivia com a mulher e quatro filhos pequenos no prédio do CDHU, mas a kombi que levaria suas coisas para a casa da sogra não conseguiu chegar ao prédio por causa do cerco da PM no local. Pouco depois das 7 horas, ele estava morto com um tiro no coração.
Os seis prédios do conjunto habitacional da Fazenda da Juta, no bairro de Sapopemba, foram invadidos há 18 dias por cerca de 400 pessoas. A Justiça determinou anteontem a reintegração de posse, pedida pela CDHU, do governo do Estado de São Paulo.
O governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), disse ontem que a ação da Polícia Militar na desocupação da fazenda da Juta foi legítima e que não via motivo para afastamento de oficiais ligados direta ou indiretamente ao caso. Covas atribuiu a legitimidade da operação ao cumprimento da ordem de reintegração de posse determinada pelo juiz Antonio Carlos Ribeiro dos Santos. O governador se baseou nos depoimentos dos quatro oficiais de Justiça que afirmaram que a polícia foi recebida a ‘‘pedras e paus’’ pelos invasores. Oficiais contaram ainda que teriam ouvido uma rajada de metralhadora provavelmente disparada por manifestantes. No entanto, os oficiais disseram não ter visto invasores com armas de fogo. O governador mostrou três fitas de vídeo - uma da TV Cultura, outra do CDHU e uma terceira das construtoras do conjunto habitacional - alegando a ‘‘transparência do caso’’.
Segundo Covas, as imagens mostram que o tenente-coronel Boscatti ‘‘foi agredido quando tentava negociar a retirada dos invasores’’. O coronel Claudionor Lisboa não quis comentar o fato de policiais não terem usado balas de borracha, escudos, capacetes ou jatos de água para enfrentar os manifestantes - técnicas comuns de combate a distúrbios civis. Covas disse que mandou instaurar dois inquéritos - um civil e outro militar. ‘‘Eles vão apontar os culpados, eu não posso fazer isso agora.’’ ‘‘O Executivo cumpre ordens judiciais. Se o juiz determinar outra vez a desocupação, temos de cumpri-la’’, disse Covas.
Maurilo Clareto/Agência Estado
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Dois amigos choram ao lado do corpo de Crispim José da Silva, de 25 anos, morto no conflito com a PM
O senador Iris Rezende (PMDB-GO), que amanhã toma posse como ministro da Justiça, disse que ‘‘o crime, muitas vezes, é inevitável’’, ao comentar o episódio do conjunto habitacional da CDHU. Perguntado sobre eventuais ‘‘exageros’’ da PM durante a desocupação, Iris disse que só poderia avaliar o caso depois de ‘‘conhecer com profundidade os fatos’’. ‘‘O crime, muitas vezes, é inevitável. Chega a Justiça e manda desocupar. Você não sabe qual foi a reação do desocupando (sic)’’, afirmou.
O porta-voz do Palácio do Planalto, embaixador Sérgio Amaral, disse ontem no fim da tarde que o presidente Fernando Henrique Cardoso não tem informações que lhe permitam avaliar o que ocorreu em São Paulo. Amaral disse que o presidente ‘‘lamenta muito as mortes’’ e lembrou que o governo federal já criou uma comissão para estudar medidas que possam ser tomadas para reestruturar as polícias militares.

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