Uma é carência, a outra, excesso. Duas condições que, a princípio, se mostram extremas - desnutrição e obesidade - são, na verdade, dois lados de uma mesma moeda. É por conta de resultados de recentes pesquisas científicas que a coordenação da Pastoral da Criança, em Curitiba, muda a recomendação no acompanhamento da criança desnutrida em todo o País. A preocupação agora é recuperar a desnutrição até os dois anos de idade. Depois disso, é preciso mudar condutas, mesmo que o indivíduo permaneça desnutrido - pois o risco é de obesidade.
É um mecanismo complexo, relacionado a fatores metabólicos e hormonais, segundo a nutricionista Caroline Caus Dalabona, da Coordenação Nacional da Pastoral da Criança, que explica esse delicado equilíbrio entre desnutrição e obesidade. A instituição toma como base pesquisas científicas publicadas na Revista Lancet nos últimos anos, que indicam que, depois dos dois anos de idade, aquilo que a criança deixou de crescer por conta da desnutrição é ''praticamente irrecuperável''. Com isso, continuar investindo na recuperação da desnutrição com alimentação hipercalórica fará ela ganhar peso, mas não altura. E muito peso para pouca altura aumenta as chances da criança se tornar obesa.
''Pesquisas indicam que crianças que sofreram retardo de crescimento durante a gestação, normalmente pela falta de alimentação equilibrada da mãe, e continuam ou se tornam desnutridas nos primeiros anos de vida, têm maiores chances de se tornarem adolescentes e adultos obesos'', aponta a nutricionista.
Uma das explicações para isso, segundo Caroline, é que, com a desnutrição devido a restrição alimentar, o corpo da criança se adapta para viver em condições de escassez, e quando se oferece mais comida, ele tende a acumular excesso com mais facilidade. ''Como o organismo de uma criança desnutrida se prepara para viver com pouco peso, quando adulta, esta sofre mais com os efeitos do sobrepeso e obesidade, frequentemente causado por um padrão alimentar rico em calorias. Aumentam também os riscos de doenças relacionadas à obesidade, como hipertensão, diabetes e problemas cardíacos'', alerta.
Pesquisas mostram ainda que, mesmo que a criança consiga recuperar um pouco da altura após os dois anos de idade, com uma melhor alimentação ela tende a entrar na puberdade mais cedo. E, como ela entra precocemente em um período em que o crescimento fica mais lento, fica, de qualquer maneira, ''mais baixa'' que o seu potencial de crescimento. ''A partir dessas evidências é que mudamos a conduta da Pastoral'', informa.
A chave para que a criança ganhe peso de maneira equilibrada e não se torne obesa, aponta a nutricionista, é a alimentação saudável. Nos novos parâmetros, então, ela deve ganhar peso acompanhando a curva de crescimento, mesmo que permaneça desnutrida. Já a prevenção da desnutrição tem se mostrado mais eficiente com intervenções cada vez mais cedo, com o acompanhamento da mãe durante a gestação.

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