São Paulo, 03 (AE) - Quase metade dos pacientes da rede pública hospitalar do País é desnutrida. Isso foi revelado pela primeira vez numa pesquisa realizada em 1977 por um grupo de cientistas que investigou fichas médicas de 4 mil doentes. A taxa impressionou os pesquisadores, que resolveram aprofundar o estudo. De lá para cá, uma outra equipe analisou os efeitos da desnutrição na vida dos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). O resultado dessa segunda pesquisa acaba de ficar pronto. É desalentador.
De acordo com os resultados do estudo, a possibilidade de pacientes desnutridos desenvolverem complicações médicas no hospital é duas vezes maior que no caso dos nutridos. Isso faz com que fiquem internados bem mais tempo. Enquanto um nutrido fica em média 11 dias internado, o desnutrido chega a 16,7 dias. É um tempo 50% maior. Com tantos problemas, o risco que um desnutrido corre de morrer num dos leitos da rede hospitalar pública é quase três vezes maior.
A pesquisa foi coordenada pela médica e especialista em nutrição Maria Isabel Correia, que agora trabalha na terceira etapa do estudo. Está avaliando como o problema da desnutrição afeta os custos do SUS. "Não posso falar ainda em números, mas está evidente que isso significa mais gastos", disse ela ao Estado. "O custo é muito alto."
Infecções - As complicações que os pacientes desnutridos desenvolvem no hospital são principalmente infecções, que exigem tratamentos com antibióticos e encarecem o tratamento. O prolongamento de sua estadia no hospital também significa mais gastos. "Isso é incompreensível numa rede na qual existem filas de pessoas aguardando internação", disse Maria Isabel.
Para a coordenadora da pesquisa, o problema está relacionado a vários fatores, como a miséria e as doenças, que contribuem para o estado de denustrição. O mais preocupante, porém, é que frequentemente as equipes dos hospitais não dão a devida atenção ao problema, permitindo que ele se prolongue, com risco de vida para o paciente.
"Durante a realização do primeiro estudo, percebemos que entre os médicos havia um enorme desconhecimento ou descaso em relação à desnutrição", conta Maria Isabel. "Encontramos referências ao problema em apenas 20% das fichas médicas examinadas - uma taxa bem menor do que a desnutrição constatada, de 48,1%."
Trabalho - As duas pesquisas foram feitas com o apoio da Sociedade Brasileira de Nutrição Enteral e Parenteral. A primeira envolveu 25 hospitais do SUS, espalhados por 12 Estados. Para aprofundar o trabalho, os pesquisadores escolheram um grupo menor, formado apenas por pacientes que passaram por exames clínicos nas primeiras 72 horas de internação e já apresentavam na ocasião algum grau de desnutrição. "Não queríamos investigar os que ficaram desnutridos no hospital, mas sim os que chegaram lá nesse estado."
No total, Maria Isabel e sua equipe acompanharam um grupo de 704 pacientes. O resultado final foi apresentado dias atrás, durante o Congresso Europeu de Nutrição Parenteral e Enteral, realizado em Estocolmo, capital da Suécia.
No Brasil, segundo Maria Isabel, esses estudos estão ajudando a promover mudanças na política de saúde pública. Foi após a publicação do primeiro estudo que se tornou obrigatória a manutenção de equipes de terapia nutricional em todos os hospitais. Outro exemplo é a criação de cursos de atualização de médicos a respeito do assunto, no Brasil e em outros países da América Latina.
Maria Isabel, que é cirurgiã, nasceu em Angola, mas vive no Brasil há 23 anos. O custo da desnutrição para o sistema hospitalar do SUS deverá ser o tema de sua tese de doutoramento, a ser apresentada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

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