Rio, 23 (AE) - O desmatamento desenfreado e desordenado na Amazônia é o principal responsável pelo crescimento no número de casos de endemias como a malária, de acordo com dados da Fundação Nacional de Saúde (FNS). Nos últimos dez anos, a devastação foi maior do que a registrada em quatro séculos de ocupação da área. Perdeu-se, em floresta, nesse período, o equivalente à área da região Sul do País. Por outro lado, o número de casos de malária no Estado do Amazonas dobrou nos últimos quatro anos.
Segundo a FNS, em 1994 foram registrados 55 mil casos de malária. No ano passado, as novas notificações subiram para 110 mil. O aumento coincide com o recrudescimento do desmatamento. Em 1978, a área alterada pelo homem alcançava 152 mil quilômetros quadrados de floresta, segundo registros do sociólogo Lúcio Faria Pinto, da Universidade Federal do Pará. No final de 1998, a região devastada já chegava a 550 mil quilômetros quadrados.
Na avaliação do chefe do escritório da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Manaus, Luciano Toledo, que está no Rio participando do seminário Visões da Amazônia: Cultura, Ciência e Saúde, os dois problemas estão intimamente relacionados. Segundo Toledo, os maiores responsáveis pelo desmatamento e, consequentemente, pelo aumento da malária, são as madeireiras, os garimpeiros, a modernização agrícola, as frentes de assentamento e o crescimento desenfreado da periferia de Manaus, que avança floresta adentro.
O motivo é o mesmo: ao promoverem um desmatamento desordenado, lançam vegetação nos rios, represando-os e formando pequenas lagoas. "Esses locais são ideais para o mosquito procriar", explicou Toledo. A malária vem atingindo principalmente a população indígena. Em alguns municípios, do total de contaminados, 75% são índios. "Não dispomos, no entanto, de uma estatística geral", afirmou Toledo. "Mas sabemos que os índios são os mais atingidos porque são mais expostos aos garimpeiros e madeireiras".
Segundo o historiador da Fiocruz Eduardo Thielen, os problemas endêmicos na Amazônia são basicamente os mesmos desde o início do século. Thielen, que, nos últimos anos, se dedicou a refazer os trajetos das expedições dos sanitaristas Carlos Chagas e Oswaldo Cruz, feitas em 1910 e 1912, disse que a malária continua sendo a principal endemia. "Já naquele tempo, os sanitaristas enviaram um relatório ao Ministério da Saúde, propondo um plano de profilaxia da malária", afirmou.

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