Desigualdades determinam sucesso de crianças
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2003
Iuri Dantas<br> Agência Folha 
Brasília - As desigualdades econômica, étnica, regional, urbana-rural e outras não só impedem o acesso a bens como determinam o sucesso de crianças e adolescentes brasileiros, consolidando as mesmas diferenças. A conclusão consta do relatório ''Situação da Infância e Adolescência Brasileiras'', divulgado ontem pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
''Ainda hoje, o fato de uma criança nascer rica ou pobre, negra, branca ou indígena, viver na cidade ou no campo, morar no Sul ou no Nordeste, ter ou não uma deficiência afeta de sobremaneira as suas oportunidades ao longo da vida'', disse Reiko Niimi, representante do Unicef.
O relatório analisa a situação de 61 milhões de brasileiros com menos de 18 anos, o equivalente a 35,9% da população. O Unicef lida apenas com dados oficiais de 2002, obtidos pelo IBGE e outros órgãos do governo.
Os números refletem o posto do Brasil de país com maior concentração de renda do continente americano. E mais: internamente, as dificuldades de crianças e adolescentes de hoje em ter acesso a educação e saúde representam o fantasma de manutenção desse status quo. Exemplo: cerca de 29 milhões de brasileiros negros menores de 18 anos têm duas vezes mais chances de ser pobre do que os brancos. O Brasil é o segundo país com a maior população negra no mundo, depois da Nigéria.
Entre as regiões, o Norte e o Nordeste apresentam os piores índices, em todas as análises. As crianças e adolescentes dessas regiões têm quatro vezes mais possibilidade de morrer antes de completar um ano de idade, 16 vezes mais chances de aprender a ler e escrever e 55 vezes mais possibilidade de não ter esgotamento sanitário em sua casa, na comparação com aquelas que vivem nas regiões Sul e Sudeste.
O relatório do Unicef descreve que o acesso à escola ''está quase universalizado, mas 5,5% das crianças de 7 a 14 anos ainda não frequentam as aulas''. Dois outros problemas: 41,7% desses alunos estão defasados e 12,7% ainda não foram alfabetizados. Quando se observa apenas os adolescentes 12 a 17 anos , sobe para 14,5% o número dos que estão fora da escola.
Presente à cerimônia de lançamento do relatório, o chefe de gabinete do ministro Cristovam Buarque, Marcelo Aguiar, parabenizou o Unicef e disse que pretende trabalhar em conjunto com o organismo para a redução das desigualdades na educação.
Outro fator que influencia diretamente a vida da criança e do adolescente, no balanço feito pelo Unicef, é a escolaridade da mãe. Na faixa dos 7 aos 14 anos, é maior o número dos que não frequentam a escola quando a mãe possui até um ano de estudo (13,3%) em comparação com os filhos de mães com 11 ou mais anos de escolaridade (1,2%).
Também foi lançado ontem o relatório sobre a Situação Mundial da Infância do Unicef, em que é feito um ranking dos 191 países signatários das Metas do Milênio um conjunto de compromissos sociais que devem ser cumpridos até 2015.
O Brasil subiu uma posição em relação ao ano passado, mas manteve o mesmo índice. O país ocupa a 93% posição, com uma taxa de 36 mortes até os cinco anos a cada 1.000 nascidos vivos. O Unicef prefere esse índice porque ele possibilita avaliar se a criança teve acesso a atendimento médico, alimentação e outros, diferentemente da taxa de mortalidade até um ano de vida.


