Desenvolvimento e conservação, um desafio ambiental
Especialistas falam sobre o desafio de movimentar a economia sem agredir a natureza
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de junho de 2019
Especialistas falam sobre o desafio de movimentar a economia sem agredir a natureza
Pedro Moraes - Grupo Folha 
No Litoral do Estado, localizado na cidade de Guaraqueçaba, a Reserva Natural Salto Morato em seus 2.253 hectares é ponto de encontro de turistas com uma gigantesca riqueza de espécies. Naquela fração da Mata Atlântica, já foram encontrados 326 tipos de aves, 73 de mamíferos, sendo 25 de morcegos, 34 espécies de répteis, outras 54 de anfíbios, além de 55 peixes diferentes e 646 vegetais vasculares. A área é reconhecida pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Patrimônio Natural da Humanidade e se tornou exemplo de como é possível proteger recursos naturais e promover desenvolvimento econômico. A área, que antes fazia parte da rota de manejo de búfalos, hoje recebe turistas, é fonte de água potável para a cidade, com enorme impacto na economia local, sendo responsável por 3% do PIB local. “A reserva está mudando a vocação da cidade e oferecendo uma oportunidade econômica para a região com o turismo sustentável”, explica Marion Silva, coordenadora de Áreas Protegidas da Fundação Grupo Boticário, empresa proprietária da área.

O turismo é o empreendimento mais reconhecido entre os muitos que estão aliados às práticas sustentáveis. No entanto, é possível extrair riquezas de unidades de conservação sem agredir a natureza. Atividades como o extrativismo sustentável de madeira, a pesca, a geração de energia e a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas são algumas das áreas que poderiam gerar mais riqueza e oportunidades de empregos no País. “É importante lembrar que nem todos os recursos naturais têm valor econômico e financeiro. A água, por exemplo, depende da cobertura vegetal para a formação de nascentes e rios. Eles são fundamentais para a geração de energia elétrica. Não há ações na bolsa de valores de empresas produtoras de água, mas têm das donas das hidroelétricas”, lembrou o economista e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Carlos Eduardo Frickmann Young. Ele é um dos organizadores do livro “Quanto Vale o Verde – A Importância Econômica das Unidades de Conservação Brasileiras”, que aponta que a falta de investimento em gestão ambiental faz o Brasil perder oportunidades de negócios sustentáveis a partir de suas unidades de conservação.
Um exemplo do impacto estimado é o do valor total do benefício gerado por recursos hídricos influenciados pela presença de unidades de conservação que poderia chegar a R$ 59,8 bilhões anuais, a partir de práticas ambientais. Aqui no Paraná, outro exemplo importante é do impacto econômico da visitação do Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu. O economista fez um estudo em 2015 do tamanho da influência das atividades da empresa concessionária Cataratas do Iguaçu. O impacto total sobre a produção das atividades ficou entre R$ 40,1 milhões e R$ 46,3 milhões anuais, sendo que o volume total de tributos arrecadados ficou entre R$ 17,8 milhões e R$ 19 milhões anuais. Além disso, a Concessionária repassou R$ 14,3 milhões ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) pela outorga da concessão, correspondendo a 25% das receitas recebidas em 2015 pela visitação em unidades de conservação federais. “Este é um caso de como a preservação gera o desenvolvimento importantíssimo, inclusive com uma parcela enorme de inclusão social”, avalia Young.
Um valor importante para se levar em consideração diz respeito aos tipos de trabalho de defesa do ambiente. É o que explica o biólogo, doutor em engenharia ambiental e professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina) José Marcelo Torezan. “Os papéis das áreas de conservação públicas e privadas são complementares, mas não substituem o trabalho que deve ser feito pelo governo, que não precisa ter um ganho econômico. O papel é o da preservação, manter os ambientes mais intocados possível”, detalha o especialista, que alerta pela preservação da Mata Atlântica, cobertura nativa do Paraná. Mais de 90% da cobertura já foi dizimada, restando apenas os trechos do Parque do Iguaçu e da Serra do Mar. “Já se destruiu quase tudo e ainda se discute como consumir os 10% que restaram. E ainda dizem que os ambientalistas são radicais. Infelizmente, a fiscalização é muito aquém do necessário, o número de agentes é mínimo e ainda reclamam do tempo que demora a licença ambiental. É preciso, sim, oferecer a gestão sustentável das unidades de conservação, mas sem deixar de pensar na preservação”, conclui Torezan.


