Desenhos mostram horrores do Holocausto vistos por jovens olhos
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2000
Por Christopher Newton 
Bethlehem, Pensilvânia (AE-AP) - Arrancada de seus pais e feita prisioneira num campo de internação nazista, Alice Guttmanova, de 12 anos, pegou alguns grossos giz de cera e desenhou a única coisa que sua ferida imaginação pôde conceber. Num pedaço velho de papel, ela deu vida e forma a seu pesadelo: o trem, uma terrível máquina que rasga a noite com engrenagens triturantes e freios gritantes, que rouba seus amigos e pessoas amadas e os leva para Auschwitz. O desenho, completo, sobreviveu ao Holocausto, mas Alice não. Em 1943 ela foi levada para Auschwitz pelo trem e morta numa câmara de gás.
Seu desenho é um dos milhares de registros criados por crianças sob a secreta tutela de Friedl Dicker-Brandeis, uma artista judia, que foi prisioneira do campo de concentração de Theresienstadt, localizado onde hoje é a República Checa.
Noventa peças dessa coleção, preservada atrás de vidros pelos checos, serão dispostas no Moravian College, em Bethlehem, Pensilvânia, até 6 de março. É a primeira vez que a coleção deixa Praga. Diversos sobreviventes do campo e o embaixador checo Alexandr Vondra estiveram na abertura da exposição.
"Nós, que estivemos lá, estamos todos tendo longos anos", disse a sobrevivente Ela Weissberger, de 80 anos. "Nós devemos sempre falar sobre o que aconteceu lá, não porque ficamos aborrecidos, mas porque podemos continuar a ter a chance de perdoar." Seu primitivo esboço de um sorridente soldado nazista segurando uma arma está entre os trabalhos mostrados.
A mostra de Bethlehem é resultado da devoção da professora de arte Anne Dutlinger do Moravian College, que visitou o Museu Judaico em Praga no ano passado, para onde os desenhos foram levados depois da libertação do campo de Theresienstadt em 1945.
Os curadores inicialmente negaram seu pedido de expor os desenhos nos Estados Unidos. Mas Dutlinger fez pé firme e tornou-se figura presente no museu, fazendo pesquisas com as reproduções e conquistando, sem saber, o respeito dos curadores.
"Um dia, eles chegaram até mim e perguntaram: Você vai precisar dos originais, não vai?", conta Dutlinger. "Eu fiquei chocada. E disse: Sim, eu vou precisar do originais."
Como parte da mostra, Ela Weissberger e outros sobreviventes contarão suas experiências e a influência de Dicker-Brandeis. "Antes de Brandeis, nós ficávamos apenas sentados, esperando o próximo acontecimento horrível acontecer", diz Weissberger. "Você pode imaginar o que é estar num campo nazista sem nada para fazer? Brandeis deu-me muita luz onde havia apenas escuridão."
Mais de 140.000 judeus foram mantidos em Theresienstadt e aproximadamente 35.000 morreram no local devido às péssimas condições de vida. Outros 88.000 foram mandados para Auschwitz, onde foram mortos em câmaras de gás.
Dicker-Brandeis era uma estudante da arte infantil muito antes de ser detida pelos nazistas. Ela estudou modernos conceitos de arte com os artistas Johannes Itten e Frank Cizek na Escola Real Vienense de Artes Aplicadas.
No dia 16 de dezembro de 1942, ela e seu marido, Pavel, foram deportados para Theresienstadt. Dias depois da chegada, Dicker-Brandeis foi até os porões, onde as crianças dormiam, armada com velhos pedaços de papel, giz de cera e guache. A maioria dos nazistas do campo nada sabia sobre suas aulas de arte. Os que sabiam ficavam felizes com o fato de as crianças serem mantidas quietas, dizem os historiadores.
A maioria dos trabalhos foi salva por Dicker-Brandeis pouco antes de ser levada e morta no campo de Auschwitz, no dia 4 de outubro de 1944. Ela colocou os desenhos em duas malas e as enterrou atrás de um muro de pedra. Anos depois, os trabalhos foram encontrados.


