São Paulo, 26 (AE) - O desemprego na Grande São Paulo rompeu a barreira dos 20% da população economicamente ativa (PEA) em abril, pela primeira vez em 14 anos de história da pesquisa do convênio Seade-Dieese. Como decorrência disso, a população que depende exclusivamente do trabalho ficou significativamente mais pobre, pois o mercado passou a oferecer salários baixos pelo excesso de mão de obra disponível. O índice de desemprego chegou a 20,3%, o que lançou mais 62 mil pessoas na desocupação na região metropolitana.
Em março, havia 1,726 milhão de trabalhadores sem ocupação. Em abril, eles somaram 1,788 milhão (+3,6%). Com isso, a renda dos ocupados também encolheu, especialmente para aqueles que não têm carteira assinada e nenhuma proteção legal. Em um único mês, o rendimento médio real dos ocupados caiu 3%. Em 12 meses, a queda chega a 5,6%.
A boa notícia é que no mês houve criação de 75 mil empregos. Só que 135 mil pessoas, que ficaram sem procurar emprego nos meses anteriores, decidiram retornar ao mercado de trabalho, possivelmente motivadas pelas notícias de uma pequena recuperação da economia, da queda da taxa de juros e da melhoria do cenário externo, segundo o diretor executivo da Fundação Seade, Pedro Paulo Martoni Branco.
"Sempre que há um sinal de melhora do mercado, o número de pessoas que volta a procurar trabalho aumenta", explicou o economista. Assim, a incapacidade da economia de criar ocupações em número pelo menos próximo ao de novos pretendentes se refletiu no aumento do índice geral de desemprego.
De qualquer maneira, foi a primeira reação esboçada pelo mercado, depois de três meses de declínio do número de postos de trabalho. O setor de serviços criou 123 mil empregos em abril, especialmente para autônomos. Outros setores (principalmente construção civil) criaram 9 mil postos. A indústria continuou demitindo assim como o comércio. Juntos esses setores fecharam 59 mil ocupações.
O desemprego aberto - aquele que reúne pessoas que não exerceram nenhum trabalho, nem mesmo bicos, nos sete dias anteriores e que efetivamente procuraram empregos nos 30 dias anteriores - foi o que mais cresceu em abril, chegando a 13,4% da PEA (em março, era de 12,9%).
Isso significa, segundo o diretor técnico do Dieese, Sérgio Mendonça, que cerca de dois terços dos desempregados estão sem exercer nenhuma atividade, nem mesmo precária, e possivelmente não contam com rendimento algum.
As implicações sociais do aumento do desemprego aberto são importantes, segundo Mendonça. Outro indicador preocupante, de acordo com ele, foi o aumento do índice para pessoas de 40 anos ou mais (+6,5%) e de chefes de domicílio, homens ou mulheres (+5%). O perfil dos mais atingidos sugere pessoas que têm responsabilidade no sustento de famílias.
A variação anual é ainda mais indicativa dessa deterioração da estratégia clássica de sobrevivência das famílias. Em 12 meses, o índice de desemprego cresceu 7,4%, mas para os maiores de 40 anos esse aumento foi de nada menos que 20 2% e para os chefes de domicílio de 11,6%.
Concentração - O setor que apresentou pior desempenho em abril, na comparação com março, foi o comércio. A queda no nível de ocupação foi de 4,5%, como resultado da baixa atividade econômica do primeiro quadrimestre, mas também da continuidade da tendência de concentração de negócios em grandes grupos, em detrimento dos pequenos estabelecimentos.
"Pequenas e microempresas, que têm grande capacidade empregadora, não estão aguentando a concorrência das grandes", explicou Martoni Branco.
Automação e reestruturação completam esse quadro. "O comércio está passando muito intensamente hoje pelo que a indústria passou nos últimos anos." O nível de ocupação no comércio vem caindo tanto que retornou à situação de abril de 1993, colocando a perder todos os avanços nos anos seguintes. Na indústria, que eliminou 7 mil postos no mês, o nível foi o mais baixo em 10 anos.

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