São Paulo, 18 (AE) - Um levantamento de dados relativos à economia brasileira pós-real, feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese)
confirmou que o desemprego e as dívidas interna e externa são os indicadores mais negativos do período - e os que estão mais longe de deixar de ser problemas muitos sérios do País.
Juntos, os dois podem causar mais instabilidades sociais e deixar cada vez mais os governos de mãos atadas, por conta de orçamentos que, ano a ano, apresentam maior nível de comprometimento.
Somente com despesas com juros da dívida interna, o setor público gastou de 1994 a 1998 nada menos que R$ 213,5 bilhões. No ano passado, o desembolso com os juros foi quase três vezes maior do que no ano do lançamento do Plano Real - aumentou de R$ 27,1 bilhões para R$ 72,5 bilhões.
A dívida líquida do setor público em fevereiro deste ano chegou a R$ 500 bilhões, correspondente a mais da metade do produto interno bruto brasileiro (PIB). Já a dívida externa total, de 1994 a 1999, cresceu R$ 75,5 bilhões, e está hoje em R$ 223,8 bilhões.
Na prática, tantos gráficos de bilhões em dívidas e juros tem significados diversos, mas o principal deles é a compressão dos orçamentos públicos, segundo o diretor técnico do Dieese, Sérgio Mendonça.
Desemprego - Quanto ao desemprego, saltou de 14,2% da força de trabalho, em média, no ano de 1994 para 18,3% no ano passado. Em abril deste ano, ultrapassou 20% na Grande São Paulo. Nas cinco regiões metropolitanas pesquisadas pelo Dieese, o número de desempregados chega hoje a 3 milhões de pessoas, a metade concentrada na Região Metropolitana de São Paulo. Na década de 90, o desemprego triplicou em São Paulo.
Para o coordenador de produção técnica do Dieese, Antônio Prado, ainda que a economia brasileira volte a crescer bastante, em torno de 5% ao ano - hipótese afastada para 1999 - o desemprego não cairá na mesma proporção de tempos anteriores. "A sensibilidade da taxa de desemprego ao crescimento do PIB hoje é muito menor", disse.
Ele deu como exemplo dois momentos da história recente. Entre 1986 e 1987 (auges do Plano Cruzado) o PIB cresceu cerca de 10% e o desemprego caiu 20%. Já entre 1994 e 1995 (auge do Plano Real), o PIB cresceu de novo algo em torno de 10%, mas o desemprego recuou apenas 9%.
"Mudaram os modelos de crescimento e emprego", afirmou Prado. "A economia se organiza hoje de outra forma e a diferença de percentuais mostra as razões estruturais do desemprego."
Sucesso - A estabilidade da moeda, o preço da cesta básica, a evolução do salário mínimo e dos rendimentos médios dos trabalhadores foram os indicadores mais positivos do período
embora os dois últimos estejam com tendência de piora.
Para uma inflação de 76,7% entre julho de 1994 e maio deste ano, a cesta básica subiu apenas 18,4%. Já o salário mínimo teve ganho real de 19% - o governo havia prometido dobrar o mínimo, mas não conseguiu.
O rendimento médio real dos ocupados também subiu, de R$ 806 em 1994 para R$ 877 em 1998. O problema é que iniciou trajetória de queda este ano. Para Mendonça, talvez a queda não seja tão expressiva que anule todos os ganhos do real, mas tudo dependerá do segundo semestre. "Se não tivermos uma nova crise externa e a economia reagir, a perda média pode não ser tão grande como a que assistimos no primeiro trimestre."

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