Desempregados espanhóis sobrevivem com a ajuda de parentes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de julho de 1999
Por Daniel Collins, da Associated Press (assinatura obrigatória) 
Madri (AE-AP) - Eugênio de la Torre é um dos muitos espanhóis desempregados. A última vez que teve um emprego fixo, há quase um ano, ganhava seis dólares por dia como ajudante de obra. Aos 28 anos, leva uma vida austera na casa de seus pais. Mas quando perguntado se está preocupado, de la Torre sorri e diz que é mais fácil ter paciência quando a comida é de graça e os pais são compreensivos. "Algo irá aparecer", disse. Crescencio Mogollón é outro dos "parados" da Espanha. É um contador de 53 anos, com esposa e três filhos para alimentar. Ele não trabalha desde 1995, e os anúncios de empregos nos jornais espanhóis quase advertem abertamente às pessoas de sua idade que não solicitem a vaga. Mas Mogollón é outro desempregado surpreendentemente sereno. "Tenho meus dias bons e meus dias ruins", disse.
Estes dois homens ilustram como a Espanha pode sobreviver ao maior índice de desemprego da União Européia sem protestar. Acontece que na Espanha, o desemprego e, com certeza, também o emprego, é uma coisa de família. A metade dos trabalhadores desocupados da Espanha vive com seus pais, de acordo com um estudo da Universidade Complutense de Madri. E a metade dos trabalhadores jovens que foram entrevistados, disseram haver conseguido seus empregos através de familiares ou amigos, ao invés de através de anúncios classificados dos jornais ou centros de colocações. Além disso, muitos se aliviam ganhando um pouco de dinheiro, sem declará-lo, em trabalhos ocasionais.
A economia prospera, ou ao menos é isso o que indicam as estatísticas. No ano passado, a Espanha cumpriu com os critérios para adotar o euro, a moeda comum européia, e seu produto interno bruto cresceu 3,8%, mais de 1% que o prometido à UE. Contudo, o índice de desocupação é de 18,2% na opinião do Instituto Nacional de Estatísticas, o que representa 8% a mais do que a média da UE. A economia está criando empregos, mas tem adiante uma montanha de desempregados. O índice era de 24% em 1994 e diminuí-lo leva tempo. Além disso, apesar de certas reformas feitas nos anos recentes, a rigidez do mercado de trabalho que gera o desemprego crônico segue em grande parte intacta, de acordo com os economistas.
O gabinete conservador do chefe do governo, José María Aznar, trata de apresentar um quadro mais ameno baseando suas cifras de desocupação no pagamento do seguro desemprego. Segundo esta norma, disse o Ministério do Trabalho, o índice é de 10,5%. Só têm direito ao seguro as pessoas que trabalharam por pelo menos um ano seguido. O governo não conta as centenas de milhares de jovens espanhóis que buscam o primeiro trabalho. "Os números do governo não têm sentido", disse o sociólogo Juan Carlos Rodríguez. "É como comparar maças com laranjas". Existe um acordo entre os economistas de que o índice de desemprego é menor do que 18%, porque muitas pessoas inscritas como desempregadas têm algum tipo de trabalho, só que recebem o pagamento em dinheiro sem declará-lo ao estado.
Eduardo Bueno, assessor do Banco da Espanha, disse que entre 10% e 20% do produto interno bruto da Espanha, a soma de todos os bens e serviços da nação, poderia ser gerado pela economia informal. Julio Alcaide, perito em estatística do instituto de estudos socioeconômicos FUNCAS, disse que o índice real de desemprego é provavelmente de mais ou menos 15%. Mas Alcaide, Bueno e outros analistas concordam que, seja qual for a cifra exata, um índice de desocupação como o da Espanha seria desastroso em outros países.
Mogollón não vive com seus pais, mas depende de sua família de outras formas. Ele e os seus vivem do que ganha sua esposa trabalhando em uma jornada parcial num círculo infantil, e de seu seguro desemprego, e a família é dona de sua residência. "Renunciei a muitas coisas", disse Mogollón. "Acabaram as férias na praia, os programas fora de casa e os passeios de final de semana". O padrão se repete por toda a Espanha: as pessoas vivem na casa dos pais até cerca de 30 anos, enquanto procuram o primeiro emprego; ou trabalham com um contrato temporário, ganhando pouco para viver de forma independente. As famílias sobrevivem com pequenas rendas e ajudas do estado. "Fazem das tripas coração", disse Rodríguez, o sociólogo. "Juntam o suficiente para viver. Vivem mal, mas vivem", "É um quebra-galho", concorda Bueno, se referindo ao modelo espanhol. "É um tipo de proteção contra o conflito social".
Os espanhóis podem ser pacientes, mas seu futuro dista de ser risonho. O governo já reduziu seu prognóstico de crescimento econômico para 1999, de 3,8% para 3,5%, devido a uma contração do crescimento das exportações como resultado da turbulência financeira externa. Muitos economistas dizem que para que a Espanha reduza seu índice de desemprego para 7% ou 8%, precisaria aumentar seu PIB para 4,5% anual durante cinco ou seis anos. Entretanto, as pessoas como Mogollón não podem fazer nada além de armarem-se de paciência e se agarrarem à esperança. O contador desempregado trata de proteger sua saúde e manter-se a par de seu campo profissional. "Minha teoria é que uma pessoa desempregada se assemelha a um jogador de basquete sentado no banco. É preciso estar preparado caso seja chamado", disse.


