Desempregados do ABC são maioria entre os invasores de fazenda
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terça-feira, 23 de fevereiro de 1999
Por José Maria Tomazela 
Porto Feliz, SP, 24 (AE) - Pelo menos 80% dos filiados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem- Terra (MST) que desde o dia 7 ocupam a Fazenda Engenho Dágua, do Grupo União São Paulo, em Porto Feliz, a 130 quilômetros de São Paulo, não são propriamente sem-terra, mas desempregados da Grande São Paulo e região de Campinas. Muitos tinham se tornado sem-teto e foram arrebanhados em bairros da periferia da capital.
Embora garantam que, no passado, a família trabalhou na lavoura, a maioria nunca pegou em um cabo de enxada. Ou, se pegou, já faz muito tempo. "Trabalhei na roça dos 7 aos 14 anos, em Jandaia do Sul, no Paraná", garante o ex-operador de ponte rolante da empresa Villares, Sebastião Vicente, de 45 anos. Desse período, Vicente não guardou nem os calos na mão. Depois disso, estudou e conseguiu emprego em indústrias do ABC. Com o fechamento da Villares, onde trabalhou 15 anos, mudou-se para uma metalúrgica de São Bernardo, até ser demitido. "Tenhos dois filhos e estou desempregado há quatro anos", disse. "Trabalhar a terra não tem segredo".
Um dos coordenadores do acampamento, João Paulo Rodrigues, admite que a maioria dos sem-terra estava afastada da agricultura. "Mas todos são filhos de agricultores ou já passaram pela lavoura", garantiu. Para ele, isso não tem muita importância. "O que importa é a vontade de trabalhar", disse, apontando um grupo que, enxada na mão, preparava uma área para o cultivo de uma horta. Está ocorrendo, segundo Rodrigues, o inverso do êxodo rural acontecido na década de 70, quando bóias-frias e pequenos lavradores deixaram o campo e aprenderam a trabalhar na cidade. "Agora, eles estão reaprendendo a plantar".


