São Paulo - Uma mulher de 37 anos, que cometeu um autoaborto em 2006, vai a júri popular. Dependente de drogas, desempregada e mãe de dois filhos, ela foi denunciada pelo Ministério Público, absolvida em primeira instância, mas terá de sentar no banco dos réus por determinação do Tribunal de Justiça de São Paulo, que atendeu ao recurso da promotoria.
Keila Rodrigues mora em Paulo de Faria, no interior de São Paulo. Em outubro de 2006, grávida de cinco meses, ela enfiou dois comprimidos Cytotec (abortivo de uso restrito, comprado clandestinamente por por R$ 100) na vagina e entrou em trabalho de parto antecipado. O bebê - que recebeu o nome de Amanda - nasceu pesando 615 gramas e viveu por 20 dias.
O caso foi parar na polícia depois que uma enfermeira do hospital registrou uma queixa contra Keila na delegacia mais próxima. A atitude é condenada pelo Ministério da Saúde na nota técnica ''Atenção Humanizada ao Abortamento'', e também pelo Código de Ética de Profissionais da Enfermagem.
O inquérito foi concluído e enviado ao Ministério Público, que entrou com uma denúncia formal contra Keila na Justiça. Pelo benefício da assistência gratuita, a advogada Maria do Carmo Rocha Chareti foi nomeada para defender Keila. E ela mesma teve dificuldade para localizar a acusada. ''Keila mora nas ruas. É pobre, alcoólatra, dependente de drogas. Nos vimos uma única vez antes da audiência com a juíza'', disse.
A ré foi absolvida sumariamente pela juíza Milena Repuo Rodrigues, mas o promotor Marco Antônio Lélis Moreira recorreu ao Tribunal de Justiça. Na argumentação, Moreira diz que não há dúvida de que houve o aborto. Em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, o promotor Moreira diz que fez a denúncia contra Keila porque ela já tinha antecedentes criminais e porque ela não apresentou provas suficientes para demonstrar que vivia em condições subumanas e seus dois filhos estavam sob a guarda da avó. ''Além disso ela confessou ter cometido o aborto. Essa ação vai servir de exemplo para a juventude da cidade prevenir a gravidez'', afirmou o promotor.
A advogada Maria do Carmo se disse surpresa com a decisão do TJ de mandá-la para júri popular. ''Keila está arrependida. Tenho certeza de que os jurados vão absolvê-la.''

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