Desempenho de aplicações surpreende e renda fixa lidera
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de maio de 1999
Por Tom Morooka 
São Paulo, 31 (AE) - O mês de maio chegou ao fim com o resultado das aplicações bastante diferente daquele projetado na virada do mês, quando os investidores em bolsa, animados com a valorização de 6,11% em abril, alimentavam uma expectativa ainda mais favorável às ações em maio. Surpreendentemente, porém, a Bolsa de São Paulo retornou à condição de lanterninha, após sustentar a liderança do ranking nos primeiros quatro meses do ano, ao encerrar o mês com desvalorização de 2,30%.
Excluído o dólar comercial, movimentado basicamente em negócios de comércio exterior, que apurou variação de 3,36%, o topo de investimentos mais rentáveis foi retomado pelas aplicações de renda fixa, com os CDBs para grandes aplicações à frente, embora as taxas básicas de juros tenham passado por seguidos cortes até acomodar-se em 23,5% ao ano, na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, dia 19.
Quem manteve o conservadorismo e permaneceu ancorado na renda fixa foi beneficiado sobretudo pelo mergulho da inflação, que, no caso de alguns índices, despencou para o terreno negativo, o da deflação. A inflação calculada pelo Índice Geral de Preços do Mercado (IGPM) registrou variação negativa de 0,29% em maio e é forte a probabilidade de que também o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) apurado pela Fipe também seja negativo. O IGPM, com elevada carga de preços no atacado, chegou a subir 3,61% em fevereiro, no rastro da desvalorização cambial em janeiro.
O investidor que apostou fichas na reprise de valorização das ações em maio, entusiasmado principalmente com a tendência declinante dos juros, terminou o mês aborrecido. Após acumular um ganho de até 9,36% nos dez primeiros dias do mês, o investimento em ações foi atropelado por um conjunto de incertezas, nacionais e internacionais.
A perda do fôlego da Bolsa de Nova York, após seguidos recordes históricos que levaram o Índice Dow Jones acima de 11 mil pontos, fraquejou primeiramente o mercado doméstico. O golpe mais duro, que espalhou incerteza maior no mercado de ações, foi a decisão do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, de mudar o viés dos juros básicos norteamericanos, de neutro para o de alta, na reunião do Comitê de Mercado Aberto do Fed, dia 18.
A mudança de viés, indicando que os juros básicos dos EUA estão inclinados à alta depois de manter tendência neutra por mais de dois anos, foi resposta a alguns sinais de aquecimento da economia e aceleração da inflação sugeridos por alguns indicadores.
Uma possível elevação dos juros básicos, indicados pela rentabilidade dos bônus do Tesouro (T-Bonds) e acomodados em 4 50% ao ano, levaria ao desaquecimento da economia norteamericana
afetando a economia de países emergentes como o Brasil, além de atrair capitais para aplicação em títulos de renda fixa dos EUA, mais rentáveis.
Um fator de inquietação doméstico foram as denúncias de suposto envolvimento do presidente Fernando Henrique Cardoso em possíveis ações de favorecimento a alguns grupos que participaram do leilão de privatização da Telebrás, em julho.
O temor de criação de uma CPI para investigar as denúncias, quando o mercado ainda tentava livrar-se das influências negativas provocadas pela CPI dos Bancos, também contribuiu para deprimir as ações. Fonte adicional de preocupação foram as especulações em torno das dificuldades econômicas que poderiam estar jogando a Argentina próxima de uma desvalorização do peso em relação ao dólar.
As incertezas varreram o pregão num momento que as ações apresentavam pico de valorização. Em 13 de maio, a valorização da Bolsa de São Paulo no ano chegou a 83,6% e os investidores, principalmente os estrangeiros, cujas compras vinham dando suporte às altas, não resistiram às vendas de ações para assegurar os ganhos apurados com a persistente valorização que se seguiu à desvalorização do real.
A rentabilidade nominal média das ações no ano foi cortada para 63,46% no fim de maio, mas a Bolsa de São Paulo continua sustentando o primeiro lugar na lista de aplicações mais rentáveis em 1999, até agora.
A menos que surja algum fato novo positivo internamente, a tendência das bolsas, segundo analistas, está amarrada principalmente à participação do capital estrangeiro na ponta de compra e ao rumo dos juros e das ações nos Estados Unidos.
As incertezas com os juros norteamericanos não deve levar o Banco Central a mudar o viés de baixa mantido para as taxas básicas domésticas. Embora com juros declinantes, a renda fixa, principalmente os fundos, permanece assegurando, em geral, margem de ganho real, ampliada pela queda da inflação.


