Desembolso ainda não está garantido Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 01 (AE) - Em princípio, tudo caminha no sentido de um anúncio, esta semana, do novo acordo entre o governo brasileiro e o Fundo Monetário Internacional. Tão logo o Senado pleno aprove o nome do economista Armínio Fraga Neto para a presidência do Banco Central e ele tome posse do cargo, deverá chegar ao FMI uma nova carta de intenção brasileira, com as assinaturas do ministro Pedro Malan e do novo presidente do BC, que é governador substituto do Brasil na organização internacional.
Sexta-feira é o dia mais provável para o envio da nova carta, segundo fontes oficiais. Malan já prepara um novo e árduo "road show" aos centros financeiros internacionais, para vender o novo programa aos investidores privados, cujo retorno ao País continuar a ser crucial para a estabilização da economia. O diretor-geral do FMI, Michel Camdessus, confirmou que o acordo está praticamente fechado e deu o início ao que, ele, o departamento do Tesouro dos Estados Unidos e , principalmente, as autoridades brasileiras, esperam que se transforme num coro de notícias positivas sobre o País - que é essencial à reconquista da credibilidade e o retorno dos investidores.
Mas o acordo com o FMI ainda não está garantido e pode não sair do papel se surgirem dúvidas sobre a capacidade política e determinação do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso de executá-lo. Ao contrário do que ocorreu no acordo anterior, desta vez a diretoria-executiva do FMI só se pronunciará depois que o governo aprovar e efetivar as medidas fiscais - inclusive aquelas destinadas a compensar o déficit fiscal adicional gerado pela desvalorização do real. "A bola, neste momento, está com o Brasil", disse uma fonte do FMI, antes do discurso de Camdessus, indicando que as negociações já foram completadas em todos os aspectos importantes e cabe agora ao governo dar uma resposta final ao Fundo.
É contra esse pano de fundo que as críticas que o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, fez no último domingo ao FMI, e a distância que assumiu em relação a Malan, em entrevista a jornais cariocas, ganham significado. Elas indicam que já começou a negociação interna do governo com sua base de sustentação sobre o novo e, até onde se sabe, duríssimo programa. O fato de ACM ter afirmado que o FMI esteja insistindo "em determinadas metas, em cortes de gastos até da Comunidade Solidária... e da cesta básica" pode não passar de um exercício do reconhecido talento do presidente do Senado para reivindicar crédito político na operação e colocar esse crédito a serviço da execução do acordo. Mas cria interrogações.
"O senador provavelmente sabe que não se falou em cesta básica ou em Comunidade Solidária nas discussões entre o FMI e o governo e pode estar, com suas declarações, até mandando um recado ao Planalto para fazer cortes onde eles, de fato, precisam e podem ser feitos", disse uma fonte oficial familizariada com as negociações. "O acordo fixa os objetivos fiscais para o País, mas não como alcançá-los, pois isso é decisão do governo e não do FMI".
Mas, por mais que se explique e que se compreenda em Washington que as declarações do senador dirigem-se ao público interno, elas causaram preocupações por várias razões, segundo fontes oficiais bem informadas. A primeira delas é que não se considera que o Brasil esteja exatamente num posição confortável para ditar condições para receber um empréstimo. Outra razão é que, ao dar mais uma demonstração de poder político com suas declarações, sinalizando inclusive a possibilidade de deixar de apoiar a política econômica do governo, ACM reforça, por contraste, as dúvidas que persistem na capital americana sobre a capacidade política de Fernando Henrique de avançar pela "trilha estreita e difícil" que o presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, Alan Greenspan, apontou na semana passada como o único caminho possível para o País superar a crise.
"Se as declarações do senador tiveram o objetivo de dar uma couraça à equipe econômica para negociar com o FMI, como interpretou um membro do governo, elas vieram com três meses de atraso e afetam o atual acordo apenas de uma forma negativa ", disse, preocupado, o diretor de um grande banco de investimentos dos EUA. O executivo lembrou que, em novembro passado, quando o FMI endossou o programa brasileiro, os bancos comerciais ignoraram solenemente o aval da instituição e, em lugar de por mais dinheiro no País, cortaram linhas de crédito. Não há razão, por isso, para se acreditar que as declarações positivas de Camdessus farão diferença, se vierem desacompanhadas de ações drásticas para cortar gastos no setor público.
Um economista de uma grande multinacional americana com forte presença no Brasil advertiu que há "um prazo implícito" na cabeça dos investidores - a terceira semana de março - para que o governo mostre serviço e obtenha os recursos do FMI. "Se essa expectativa não for satisfeita, poderemos ter uma corrida contra o real". Um alto funcionário do Tesouro indicou hoje que poderá levar ainda três meses para os credores privados começarem a voltar ao País.
"Se os políticos brasileiros acham que podem usar o Pedro Malan por mais dois meses para obter mais um desembolso do FMI e enganar o FMI e os banqueiros, estão iludidos, e estão ainda mais iludidos se acham que o FMI e o Tesouro americano apoiarão o Brasil de qualquer maneira , para não serem responsabilizados pelo naufrágio do País", disse ele. "Eles não devem esquecer que o FMI e o Tesouro abandonaram a Rússia, que tem armas nucleares, quando o risco do contágio da crise mundial era muito maior do que é hoje", afirmou ele.
"E a chave, de qualquer maneira, é a volta dos fluxos privados e estes voltarão não com um novo endosso do FMI, mas só com a execução do programa". No Ministério da Fazenda, compartilha-se plenamente desta avaliação.





