Brasília, 28 (AE) - O desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso Odiles de Freitas, acusado pelo juiz Leopoldino Marques do Amaral - assassinado no início de setembro - de ter ligações com o narcotráfico, não conseguiu convencer os senadores de sua inocência no depoimento que prestou hoje à CPI do Judiciário. O relator da CPI, senador Paulo Souto (PFL-BA), considerou "pouco convincentes" as explicações de Freitas sobre sua ida à fazenda do narcotraficante boliviano Lúcio Salorram. Os senadores tampouco aceitaram a justificativa do desembargador sobre os quatro cheques, no valor de R$10 mil cada um, que entregou ao empresário Josino Pereira Guimarães, acusado de intermediar a venda de sentenças de desembargadores daquele tribunal.
Sobre a ida à fazenda de Salorram, condenado a 18 anos de prisão, na companhia do juiz José Geraldo Palmeira - também citado como um dos envolvidos no narcotráfico - o magistrado disse que a sua intenção era a de investigar a entrada na Bolívia de carros furtados em Mato Grosso.
Na época, em 1987, Odiles de Souza era presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Ele disse que foi à fazenda, localizada em Cáceres, apenas para trocar de avião e de lá seguir em direção à Santa Cruza de La Sierra, onde se encontraria com o comandante do Exército boliviano que investigava o fato. O desembargador disse que ficou pouco tempo no local, mas o relatório do plano do vôo mostra que o avião só teria decolado dois dias depois de sua chegada.
Em resposta ao presidente da comissão, Ramez Tebet (PMDB-MS)
o juiz disse que nenhuma autoridade policial ou judicial sabia desse seu empenho em investigar o roubo dos carros. Segundo ele, tampouco existe documentos escritos que comprovem a veracidade do fato. "Fui a Santa Cruz para mostrar ao juiz José Geraldo o número de carros que passam pela fronteira", justificou. "Se eu fosse esperar pelos canais competentes, demoraria anos e anos." Ele contou que esteve outra vez na fazenda para comprar uísque numa espécie de bazar de artigos importados que funcionava no local, quando participava de uma caçada naquele município.
Suas explicações sobre os cheques também foram consideradas insuficientes. Ele disse que se limitou a atender a um pedido do empresário que queria fazer negócio para a construção de uma casa, na Chapada dos Guimarães, mas que não dispunha de conta bancária. Odiles de Souza atribuiu as acusações envolvendo seu nome a uma campanha difamatória feita pelo juiz assassinado contra os desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado. O vice-presidente da CPI, senador Carlos Wilson (PPS-PE), chamou a atenção para a "frieza" do depoente em cada uma de suas justificativas, mas ainda assim observou que "nenhum argumento pode explicar a falta de decoro de um presidente de TJ em visitar um narcotraficante".

mockup