O bandido e a moça, os tiros, a morte à saíde de um ônibus no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro – tragédia transmitida pela TV, provocando ações, reações e promessas. Não bastam.
Desculpe pelo que lhe fizemos como sociedade, professora Geisa. Nesses tempos de muito mofo e bolor nas construções e nas almas, nem percebemos que você existia, dando aulas para crianças numa favela, ensinando dignidade e cidadania. Desculpe: estamos preferindo dizer que amamos a humanidade, e não o semelhante, e não conseguimos mais ver nem o que está à nossa frente.
Desculpe, Geisa, porque para entender o seu desprendimento, dedicação e amor, como realidades e não abstrações, precisamos da ajuda de Brecht: ‘‘Não fazer o mal a si próprio, nem a ninguém. Encher de alegria a todos e a si também. Eis o bem.’’
Desculpe, professora, porque mergulhamos nas teses e elucubrações e vamos deixando a bandidagem crescer, como se houvessem fábricas e mais fábricas de delinquência. Desculpe, Geisa, porque gostamos de enganar a nós próprios: nosso Direito não oferece as respostas que a sociedade espera, a economia estrangula e não deixa espaço para a esperança, as instituições não honram o seu papel e cultivamos o faz-de-conta, a mis-en-scSne, que de repente, um ônibus transforma em vitrine. Cenas de dia de cão, cenas de terror, num confronto violento com a realidade.
Desculpe, Geisa, porque dez anos se passaram e ninguém se tocou muito com aquilo que se chamou Chacina da Candelária. Naquela noite sinistra, vários meninos foram mortos, executados. Um deles escapou, Geisa. Justamente aquele que, depois de tantos anos, iria lhe matar. Na verdade, professora, nós – como sociedade – gostaríamos de tê-lo estrangulado antes, bem antes, e não dentro da viatura da PM.
Desculpe, Geisa, porque sua morte – réquiem? holocausto? sacrifício? – provocou indignações de alto a baixo e os planos – ah, os planos! – serão anunciados depois de amanhã: nesta terça-feira, o Planalto promete mais um pacote de intenções, apressadas por causa da sua morte, como se a gente vivesse precisando de tragédias para nossas autoridades incompetentes tomarem alguma atitude e justificarem o múnus conferido.
Desculpe, Geisa, porque se não fosse a força das imagens da TV, os policiais que cometeram erros crassos na operação que deveria ter sido desencadeada para salvá-la e não para matá-la – ainda teriam enchido de chumbo o ex-menino da Candelária, para justificar a morte por asfixia mecânica, o estrangulamento portanto, como se nós, sociedade, tivéssemos conferido a iluminados o direito de decidir quem deve viver e quem deve morrer neste País.
Desculpe, professora, porque contam tantas histórias, apontam tantas causas e fatores (misturando uns com outros e assim fugindo das estruturas massacrantes), que tudo se torna bizantino, inútil. Afinal, pode-se falar o que quiser. Você morreu, você é a vítima, e isso é a única coisa que importa. Não existe satisfação alguma por bandido morto quando a vítima morre. Desculpe Geisa: a questão seria você viva e não o bandido morto.
Desculpe, Geisa, porque tudo isso poderia ser evitado. Não precisaria ter acontecido. Desculpe, professora, porque a cultura da nossa sociedade hedonista é da morte e não da vida, é do tido e não do alimento, é do chumbo e não da educação, é do sangue e não da moradia. Parece que voltamos a ser habitantes das cavernas – brucutus urbanizados que desaprenderam a se amar, a se proteger, a se educar, a se solidarizar.
Se pudesse servir de consolo, professora, aquelas balas que te atingiram e te mataram acertaram um pouco a cada um de nós.
Desculpe, professora, porque quando as imagens de você subjugada, em pânico, indefesa, dominada por uma algoz insensível e brutalizado, que nós inventamos e acalentamos na violência, acabarem desaparecendo de nossa consciência, voltaremos a culturar o ódio em vez do amor, o terror em vez da esperança, a vitória do forte sobre o fraco.
Desculpe, pelo que fizemos, Geisa Firmo Gonçalves. Descanse naquela paz que não soubemos te dar, oferecer, retribuir. Sentimos vergonha e dor, mas é pouco. Desculpe pelo que lhe fizemos, professora.

mockup