São Paulo, 16 (AE) - "É fato que existe certa desconfiança dos investidores externos e também dos investidores domésticos quanto à capacidade de o Brasil concluir as reformas, e a solução para isso é o governo arregaçar as mangas e trabalhar. É o que estamos fazendo e vejo o Congresso engajado neste processo", afirma o presidente do Banco Central, Armínio Fraga.
Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo e à AGÊNCIA ESTADO, Fraga reconhece que esta "descrença" tem mantido o risco Brasil em patamar elevado no mercado internacional e também custado ao governo prêmios acima do juro primário da economia ou da taxa Over/Selic na venda de títulos préfixados.
"O juro do BBC acima da Selic é outro sintoma da mesma doença. É um sinal do mercado de que há desconfiança quanto às reformas. O Banco Central reconhece este fato e não vai remar contra o mercado, porque vê progressos indiscutíveis na área fiscal. Estamos cumprindo metas fiscais há dez meses. Estamos confirmando superávits primários. Isto significa que o eixo deu uma importante virada na área fiscal. Em 1997, por exemplo, o resultado das contas públicas foi de déficit primário de 1% do PIB. Portanto, há alguma injustiça no reconhecimento desses avanços, porque o governo tem trabalhado para melhorar seus resultados, como sinalizou o presidente FHC em sua campanha que resultou na reeleição."
Fraga chama atenção, porém, para a mudança de patamar de risco externo das economias emergentes, que hoje supera os níveis registrados na crise asiática e russa, e espontaneamente informa que o Brasil está ocupando neste momento posição na carteira dos investidores internacionais abaixo de sua média histórica. Isto é ruim, mas também há um ângulo favorável: "O lado positivo é que o Brasil pode crescer nas carteiras desses investidores.
Choque - Fraga considera que o Brasil tem hoje uma situação fiscal melhor, tem menor dependência de capital de curto prazo e tem o sistema de câmbio flexível. "Nessas condições, um choque externo seria melhor administrado", acredita, inclusive, "porque os spreads no mercado internacional já estão embutindo riscos de dificuldades nos países vizinhos."
Fraga não tem a visão negativa da maioria, sobretudo, quanto à Argentina. "Tenho sim uma visão positiva da Argentina. Não falo de política, mas considero que as eleições vão transcorrer sem problemas. Não acredito que a Argentina vai alterar seu sistema cambial, porque há o reconhecimento de que ele foi muito bom para o país. Não há dúvida de que o custo é uma recessão profunda, que não invejo, mas a Argentina deve começar a colher agora os frutos do que fizeram de positivo nos últimos anos. Do lado interno, reconheço que a economia brasileira chegou ao fundo do poço entre dezembro de 1998 e janeiro de 1999, e também que o momento ainda é difícil, mas as questões serão administradas. Meu cenário básico para a economia brasileira é simples: precisamos continuar remando com o Congresso para fazer as reformas e acredito que o País tem condições de crescer sem medo. Sem inflação. Existe vento contra? Existe. Mas ele pode ser superado", afirma Fraga.
O presidente do BC informa que os investimentos diretos neste ano já somam US$ 18 bilhões e antecipa que a instituição trabalha com a expectativa de que o País apresente superávit comercial de US$ 2 bilhões. Na avaliação de Fraga, o balanço de pagamentos está bem administrado e o déficit em conta corrente -estimado em US$ 23 bilhões- não dependerá de financiamento de curto prazo.
"É verdade que a balança comercial poderia dar uma contribuição maior, mas é assim mesmo. O efeito da desvalorização sobre as exportações demora a ser sentido, sem contar que tivemos grande perda de valor de troca de produtos. Mas não podemos desprezar os ganhos da conta de serviços e nos convencer de que o Brasil precisa aprender a exportar turismo."
Sobre a pressão recente da taxa de câmbio nas últimas semanas, Fraga concorda que ela resultou de certa turbulência externa e também pela insegurança provocada pelo cenário político doméstico. Mas, quando questionado sobre um eventual limite para o câmbio, o presidente do Banco Central diz apenas que o limite para o câmbio é o seu impacto sobr e a inflação - até agora não detectado. "Se o câmbio pressionar a inflação, teremos reduzida a margem de corte das taxas de juros", garante.
Sobre a possibilidade de o juro permanecer inalterado na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para o início de setembro, Fraga repete as declarações habituais: "Vamos aguardar e acompanhar os acontecimentos e, no momento da reunião, avaliar as condições em que estamos."
Apenas um dica: o presidente do Banco Central não revela maior preocupação com o setor externo. Na sua opinião, os preços dos ativos já incorporaram expectativas nem pessimistas demais nem otimistas demais.

mockup