Rio, 14 (AE) - Carlos Chagas descobriu a doença que anos mais tarde levaria seu nome por acaso. Em junho de 1907, o médico, então já conhecido nacionalmente por suas campanhas contra malária, foi convidado para estudar uma epidemia da doença entre trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil
na pequena cidade de Lassance, no norte de Minas Gerais. Sem lugar adequado para instalar o laboratório, Chagas escolhe uma casa abandonada, transformada logo em ambulatório para atendimento dos infectados.
Curioso, o médico não se limitava a tratar dos doentes. Nas horas vagas, ele capturava, classificava e estudava os hábitos de insetos hematófagos, alojados na parede de pau-a-pique das casas pobres da região, que à noite se alimentavam do sangue de seus moradores. Por atacar preferencialmente o rosto, os insetos eram conhecido pela população local como "barbeiro". Sem condições para pesquisas na pequena Lassance, Chagas resolve levar algumas amostras do inseto para seu laboratório no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio, e
com o apoio de outros pesquisadores descobre a existência de uma parasita, a Trypanosoma cruzi, nome que dá em homenagem a Oswaldo Cruz.
Chagas volta a Lassance convencido de que o parasita descoberto poderia ser causa de doença tanto para animais domésticos quanto para o homem. No dia 15 de abril de 1909, o médico, finalmente, confirma suas suspeitas. Descobre o parasita no sangue de menina Berenice, de 3 anos. O caso vira um marco: trata-se da única vez na história da medicina em que um pesquisador desvenda ao mesmo tempo uma doença, seu agente etiológico (o parasita), seu ambiente e seu vetor (o barbeiro).
Chagas passou toda a sua vida tentando provar a existência do Trypasoma cruzi. Mas, só depois de sua morte, em 34, é que a comunidade internacional reconheceria sua descoberta.

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