A capacidade de sobreviver no ambiente hostil de um deserto usado para testes nucleares, dependendo basicamente de suprimentos de água salgada, foi a primeira forte impressão causada pelo camelo selvagem do norte da China, quando descoberto por cientistas ingleses e chineses, em 1997. Ao investigar seu DNA, a partir de amostras de pele, porém, a surpresa foi ainda maior, já que existe uma diferença de 3% entre o camelo selvagem e a espécie domesticada de duas corcovas (chimpanzés e homens, por exemplo, têm apenas 5% de diferença). Com base nestes dados, o camelo selvagem foi anunciado como uma nova espécie, ontem, em Nairóbi, no Quênia, em nota oficial do Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, Pnuma.
Para os especialistas, existem duas hipóteses para explicar a diferença genética: ‘‘O camelo domesticado pode ter derivado desta espécie selvagem em algum momento remoto da história e teríamos encontrado remanescentes dos ancestrais do camelo doméstico, assim como os lobos são ancestrais dos cães. Ou o camelo doméstico que conhecemos derivou de uma outra espécie, que desapareceu. Isso significaria que estes camelos selvagens são uma espécie totalmente distinta’’, explica o geneticista molecular Olivier Hanotte, do International Livestock Research Institute, um dos coordenadores da pesquisa.
A equipe trabalha sobre amostras de pele coletadas numa expedição conjunta de pesquisadores ingleses e chineses ao deserto de Kum Tagh, na província de Xinjiang, no norte da China, junto às montanhas tibetanas. A área estava interditada desde 1955 para servir para testes de armas nucleares. Os testes terminaram em 1996, mas então teve início um afluxo de caçadores ilegais e garimpeiros de ouro e minério de ferro. Os invasores representam, atualmente, as maiores ameaças à sobrevivência dos camelos, porque comem sua carne e algumas vezes os caçam colocando minas em torno dos poços naturais de água salgada.
As estimativas são de que existam menos de mil exemplares do camelo selvagem, sendo 600 no deserto de Kum Tagh, na China, outros 300 no deserto de Gobi, na Mongólia e 15 em cativeiro. Uma área de 150 mil quilômetros quadrados do deserto chinês foi transformada no Santuário Natural de Lop Nur, em março de 1999, protegendo o limite norte do território onde foram localizados dois grupos de camelos selvagens, um com 106 exemplares e outro com 63. Ao sul, as dunas de areia formam uma barreira natural.
Uma organização não-governamental, com sede em Kent, na Inglaterra - a Wild Camel Protection Foundation - coordena um programa de pesquisa e proteção, com recursos do Pnuma e do Fundo Ambiental Global (GEF). O principal objetivo, agora, é aumentar o policiamento nas 15 estradas que cortam o deserto e iniciar um programa de reprodução em cativeiro para posterior reintrodução.

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