Descoberta de túnel provoca rebelião no Carandiru
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domingo, 11 de abril de 1999
Por Marcelo Godoy 
São Paulo, 12 (AE) - A descoberta de um túnel na oficina do pavilhão 1 provocou uma rebelião de presos na Penitenciária do Estado, no Carandiru, zona norte de São Paulo. Os detentos mantiveram cerca de 20 funcionários do presídio como reféns durante cinco horas. O motim terminou após a direção da Coordenadoria dos Estabalecimentos Penitenciários do Estado de São Paulo (Coespe) prometer aos presos que não haveria represálias e também que 21 deles seriam transferidos para outras penitenciárias da Grande São Paulo - a de Franco da Rocha e a de Guarulhos. Nenhum refém ou preso ficou ferido. A maioria dos detentos envolvidos com o túnel tem condenações altas para cumprir.
A ação dos detentos começou pouco depois das 9h30 de hoje. Os agentes penitenciários fazem duas revistas por semana na prisão, a primeira às segunda-feiras e a outra, às sextas-feiras. No meio da revista, na oficina de conservação do pavilhão 1, os agentes encontraram a entrada do túnel. Ele ia daquele pavilhão em direção à Avenida Ataliba Leonel. Os presos já haviam escavado até a muralha interna da penitenciária. "Alguns detentos estavam dentro do túnel, cavando, quando o buraco foi descoberto", disse Lourival Gomes, diretor da Coespe.
Imediatamente, os presos saíram do túnel e, auxiliado por colegas armados com estiletes e barras de ferro, tomaram cerca de 20 funcionários - entre eles o diretor de vigilância, Sérgio Alexandre de Araújo - como reféns. Todos os reféns estavam no pavilhão 1 e foram postos na oficina do prédio, perto da abertura do túnel. Os demais agentes penitenciários abandonaram os pavillhões com as celas abertas. No total, 2.257 detentos ficaram soltos no presídio.
Apesar disso, o governo insistia em afirmar que não havia uma rebelião, mas uma tentativa de fuga frustrada. Segundo Gomes, além dos detentos que iriam beneficiar-se do túnel, outros resolveram aderir ao movimento para reivindicar a transferência de presídio. De acordo com ele, um grupo de 10 a 12 presos negociava com o direção da prisão.
"O principal receio dos detentos era que a tropa de choque da PM invadisse a cadeia, por isso, eles recusavam-se a libertar os reféns", afirmou Aniceto Fernandes, diretor da penitenciária. A preocupação dos presos estava baseada no fato de a tropa de choque ter sido posta de prontidão no fim da manhã para intervir em caso de necessidade, uma praxe nesse tipo de rebelião. "Mas, em momento algum, cogitou-se usar essa tropa", disse o diretor da Coespe.
Além do medo da ação da PM, os presos também temiam sofrer espancamentos ou outras represálias dos agentes penitenciários, daí o motivo do pedido de transferência.Por volta das 14h30, a rebelião terminou com a libertação dos reféns. Segundo o diretor da penitenciária, haverá sindicância para determinar quais presos lideraram o movimento. Eles poderão ser mandados para o Centro de readaptação Penitenciária (CRP), um anexo da Casa de Custódia de Taubaté (SP) conhecido como Piranhão. Detenção - O secretário da Administração Penitenciária, João Benedito de Azevedo Marques, disse hoje que um dos funcionários da Casa de Detenção apontados pela Justiça como tendo sido condenado por tráfico de drogas já foi demitido pelo governo. Levantamento da Justiça verificou que 241 dos 1.101 funcionários da prisão têm passagem criminal.
"Há um outro caso apontado em que o funcionário só não foi demitido porque a vara criminal que o condenou esqueceu de nos comunicar a pena", disse. "Não são todos os funcionários que têm esse tipo de problema", disse o agente penitenciário Liderval Ribeiro Marinho, de 32 anos, que trabalha no pavilhão 9. Marinho já foi esfaqueado por presos e teve a clavícula quebrada por um detento. "A maioria é honesta".


