Londrina - Pode-se considerar até um ato de compaixão retirar um peixe das quatro paredes de vidro que o cercam para devolvê-lo ao ambiente natural. O problema é que, no caso de peixes ornamentais que não são nativos do rio, lago, riacho ou bacia onde será descartado, isso pode trazer um desequilíbrio ecológico, afastando ou minando outras espécies. Isso já está acontecendo na bacia do alto rio Paraná, por exemplo, onde já são encontradas 11 espécies de peixes oriundos do Pantanal, Amazônia, Ásia e América Central, segundo uma pesquisa realizada por um grupo do Laboratório de Ecologia de Peixes e Invasões Biológicas (Lepib), do Centro de Ciências Biológicas (CCB), da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Alguns deles se tornaram invasores, comendo peixes nativos, ou disputando alimentos com os outros, causando um desequilíbrio importante ao ecossistema.
A pesquisa, que compilou dados e estudos já publicados por outros autores, constatou que espécies como Flame Tetra, Cascudo Abacaxi, Pati, Cará, Oscar, Mato Grosso e Espada estão presentes na bacia estudada, e que eles chegaram lá por descarte irregular principalmente de quem pratica aquarismo. Segundo o orientador do trabalho, o biólogo e professor do CCB, Mário Orsi, essas espécies específicas não podem ter chegado de outra forma. "Até existe outros mecanismos de introdução de espécies aquáticas, como quebra de barreiras geográficas, como em Itaipu, por exemplo, mas nesse caso foi por soltura irregular", explicou.
O prejuízo para a fauna aquática pode ser irreversível, uma vez que algumas espécies mais agressivas podem começar a competir por alimento com espécies nativas ou ainda transmitir doenças. "O segundo mecanismo que mais extingue ou reduz população de espécies nativas é a invasão biológica. Nem todas as espécies encontradas no alto Paraná são invasoras. Algumas conseguem conviver com as espécies nativas, mas quando se tornam invasoras o prejuízo é muito grande", explicou. Segundo Orsi, o Brasil está atrasado na ciência de detecção desse problema. "Em outros países isso é levado mais a sério e estudado a muito mais tempo de forma interdisciplinar". Os Estados Unidos, por exemplo, já gastavam em 2005 cerca de U$ 1,2 milhões por ano para reduzir espécies invasoras em todos os seus ecossistemas.
Quando as espécies invasoras aumentam muito de população, isso pode interferir inclusive na qualidade da água, segundo o biólogo. "Se uma espécie começa a reduzir a população de um peixe nativo que comia algas, essas algas podem começar a crescer descontroladamente, tornando a água inviável. Ou os invasores reduzem a população de peixes que consomem insetos, isso causa outros prejuízos. É um problema de saúde pública, muito sério", salientou.
O superintendente do Ibama no Paraná, Jorge Callado, acrescentou que o descarte irregular de peixes não nativos em ambientes naturais é crime ambiental. "Se isso for constatado é passível de multa, que pode variar de R$ 1,5 mil a R$ 500 mil, dependendo da espécia descartada e da quantidade de peixes".

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