Desarmamento da GM volta ao debate após morte de jovem negro
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sexta-feira, 16 de março de 2018
Rafael Machado <br> Reportagem local 

Após a morte do jovem negro Matheus Ferreira Evangelista, 18 anos, em uma festa no último final de semana, na zona norte de Londrina, o desarmamento da Guarda Municipal ou a restrição no uso de armas voltaram ao debate. Na noite desta quinta-feira (15), o guarda municipal suspeito foi preso temporariamente após mandado expedido pela 1ª Vara Criminal de Londrina. Outros dois agentes que participaram da abordagem também foram afastados das funções.
Depois da morte de Evangelista, uma petição foi criado nas redes sociais pelo Coletivo de Combate ao Genocídio de Jovens para colher assinaturas favoráveis pelo desarmamento da Guarda Municipal. No entanto, a iniciativa foi parar na Ouvidoria-Geral da Prefeitura de Londrina. De acordo com a denúncia protocolada nesta sexta-feira (16) pelo Sindicato dos Jornalistas do Norte do Paraná, um guarda municipal teria feito ameaças nas redes sociais por conta da criação do abaixo-assinado, que foi retirado da internet na sequência pelos organizadores com medo de represálias.
O ouvidor-geral, Alexandre Sanches Vicente, confirmou o recebimento da denúncia e disse que não poderia fornecer mais detalhes do caso, mas que "uma resposta será dada ao autor do protocolo em 20 dias".
Em entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira, o prefeito Marcelo Belinati disse que é necessário aguardar as investigações que envolvem o homicídio de Matheus Evangelista para elucidar a responsabilidade pelo crime. Belinati lembrou que a Guarda Municipal foi criada com a concepção de ser armada e ostensiva, contribuindo com a segurança em parceria com outros órgãos. "Essa discussão é importante que a sociedade de Londrina faça. É importante que a cidade debata o que é prioridade e os caminhos que o município deve tomar. Nenhum prefeito é dono da verdade. É uma discussão que tem que ser colocada e a sociedade precisa saber, exatamente, qual o papel que ela quer de cada órgão, inclusive da Guarda", avaliou.
Procurado pela FOLHA, o secretário municipal de Defesa Social, Evaristo Kuceki, disse que encaminhou a situação para Corregedoria da corporação. Questionado pela reportagem, ele rebateu a proposta de desarmamento da Guarda Municipal. "Se primeiro tirassem as armas dos bandidos, os guardas não precisariam andar armados", respondeu.
O secretário de Defesa Social assegurou eficácia nos treinamentos dos guardas, que passam por atualizações constantemente. "A Polícia Federal nos obriga a promover uma reciclagem de 40 horas anuais a todos os integrantes. Aproveitamos esse período para intensificar o ensino de outras disciplinas, como Direito Penal. Posso dizer que eles estão aptos a portar uma arma para defender a população", completou Kuceki.
Para o representante do Centro de Direitos Humanos, Carlos Santana, a discussão sobre o tema necessita de aprofundamento. "Isso me traz preocupação e medo pelas estatísticas", comentou. Desde a autorização para o porte de arma, em dezembro de 2015, foram duas mortes envolvendo guardas municipais em serviço. Santana ainda sugere a criação de grupo especial dentro da Guarda para utilização das armas em determinadas ocorrências.
No caso do último fim de semana, os servidores alegam que o rapaz já estava baleado, quando as viaturas estacionaram no jardim Porto Seguro para atender uma ocorrência de perturbação de sossego. Quem participava da festa contesta a versão, afirmando que o disparo teria acontecido quando todos foram abordados. A morte de Matheus é alvo de inquérito ainda em trâmite na Delegacia de Homicídios.
HISTÓRICO
O primeiro caso ocorreu com o ex-guarda municipal Ricardo Felippe, já expulso da organização. Em abril de 2017, ele, mesmo de folga, matou a sócia da ex-companheira, o filho e o pai de outra ex-namorada. No ataque, outras duas pessoas, incluindo um senhor de 80 anos, ficaram feridas.
O segundo caso foi registrado em novembro do ano passado, quando um guarda atirou em José Vilmo Silvestre da Silva, 40 anos, depois de uma confusão na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jardim Sabará, zona oeste.
O delegado responsável pelas investigações, Ricardo Jorge, compreendeu que o agente agiu em legítima defesa, e por isso pediu o arquivamento do inquérito. A conclusão ainda está sob análise do Ministério Público e da Justiça. O guarda não foi detido.


