As novidades do Projeto Genoma Humano, a interpretação, localização e função completa de cada gene - anunciadas na última terça-feira, dia 13, deram início a uma nova corrida: a identificação de genes em conjunto com a sequência de proteínas. O trabalho é chamado de proteoma. Cada um dos 30 mil genes é capaz de produzir vários tipos de proteínas, fato que muitos pesquisadores chamam de ‘‘flexibilidade genética’’.
Depois do genoma, a missão dos cientistas é entender todo o proteoma, a combinação dos 20 tipos de aminoácidos que podem assumir milhares de combinações. Quando se alcançar a definição da estrutura da proteína, será possível entender como ela age no organismo. Mas isso não significa que as pesquisas do genoma ocorrerão separadas às do proteoma. Pelo contrário, pois são as proteínas que levam a mensagem dos genes para controlar as funções do nosso organismo, podendo realizar um função normal ou causar uma doença.
A previsão é de que em 20 anos novas drogas, criadas com base nas pesquisas do genoma humano, chegarão ao mercado. Em 30 anos será possível conhecer os genes de 12 mil doenças. Em 50 anos já existirão tratamentos individualizados.
Para a geração atual, a aplicação prática e imediata é um diagnóstico mais completo. ‘‘Em algumas doenças o diagnóstico precoce é fundamental para um futuro tratamento’’, explica a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo.
‘‘Realizar um diagnóstico precoce no pré-natal vai ser cada vez mais comum. Nos próximos 5 ou 10 anos vamos detectar milhares de mutações ao mesmo tempo, logo no início da gestação, e descobrir se o feto tem algum problema.’’
Para as pessoas com câncer os diagnósticos sairão mais cedo e haverá tratamentos específicos, com medicamentos menos agressivos. ‘‘Em menos de 10 anos vamos melhorar o tratamento do câncer, identificando se uma pessoa corre ou não o risco de desenvolver a doença. Vamos aplicar terapias para cada pessoa de acordo com a sua mutação genética’’, analisa.
Outro setor que será beneficiado é a farmacogenética.‘‘Poderemos dar um medicamento de acordo com o perfil genético de cada um.’’
Mayana garante que a longo prazo será possível entender tudo que os genes são capazes de fazer, como eles interagem e qual a contribuição no comportamento humano e personalidade, além de outros aspectos.
‘‘Não é preciso esperar
por todas essas respostas para tratar de uma doença genética. Estamos apenas no início, mas já existem pesquisas sobre o assunto. A parte mais importante vem agora.’’
Mesmo sem ter participado oficialmente do Projeto Genoma Humano, o Brasil deu sua contribuição. Isso graças ao Projeto Genoma Câncer, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que produziu mais de um milhão de fragmentos de genes humanos, colocando o País como o segundo que mais contribuiu com o banco de genes internacional.
No Brasil, cerca de 200 pesquisadores, dedicam-se à pesquisa. Em Curitiba, por exemplo, o Laboratório Genetika, dirigido pelo geneticista Salmo Raskin (que faz parte do Projeto Genoma Humano desde 1990), já realiza diagnósticos precoces de 400 das 12 mil doenças genéticas conhecidas. Segundo ele, a estimativa reduzida do número de genes humanos, a previsão era de 100 mil e constatou-se 30 mil, aumenta ainda mais as chances de descobertas de novas doenças genéticas.

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