São Paulo - Imagine que você tem uma doença e que por isso precisa utilizar remédios com os quais ''não se vê'' resultado. E mais: os medicamentos são injetados diariamente ou com bastante frequência. Para pacientes que sofrem de esclerose múltipla (EM) , doença autoimune que afeta o sistema nervoso central, esse é um dos fatores de maior desistência do tratamento. Alertar para a importância de diagnóstico e tratamento precoces é o objetivo do Dia Nacional de Conscientização da Esclerose Múltipla, comemorado ontem.
O neurologista Barrie Hurwitz, professor associado de neurologia do Departamento de Medicina do Centro Médico da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, reforçou a importância desse tipo de conduta para frear o avanço da doença. Ele ministrou palestra com o tema ''O diagnóstico e tratamento imediato em EM traz benefícios?'', durante o BCTRIMS Tenth Annual Meeting - 10º Congresso Brasileiro de Esclerose Múltipla, que reuniu profissionais de todo o país e do exterior, na última semana, em São Paulo.
A esclerose múltipla é uma doença crônica e se caracteriza por surtos inflamatórios que causam reações no paciente dependendo da região do sistema nervoso central que foi afetada. Se a área afetada é a que comanda a visão, por exemplo, a pessoa sofre com visão borrada. Outros sintomas comuns são fadiga, fraqueza, formigamento, dormência nos braços ou pernas, incontinência fecal ou urinária e dificuldade para falar.
Os surtos têm duração de pelo menos 24 horas e, na fase inicial, o paciente tem uma recuperação completa ou quase completa, mas gradativamente eles vão deixando sequelas e causando incapacidade. ''Os sintomas iniciais são geralmente alterações sensitivas, quadro que desaparece depois de alguns dias, mas o problema é que os sintomas não são muito valorizados pelo paciente'', alerta o neurologista Fernando Figueira, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia, da Sociedade Americana de Neuroimagem e da Sociedade Européia de Neurologia, que também participou do congresso.
Sem tratamento, aponta Hurwitz, 65% dos pacientes desenvolvem disfunções cognitivas, que incluem dificuldade de memória, de aprendizado, de atenção e de processar informações. A mortalidade também é três vezes maior, apontam estudos. ''Pesquisas mostram que, antes dos medicamentos para controle da doença, esses pacientes perdiam de dez a 12 anos na expectativa de vida em relação à população em geral. Outro estudo mostra que aqueles pacientes tratados na fase inicial da doença e que se mantiveram em tratamento foram os que tiveram o melhor resultado'', afirma.
Os grandes desafios, segundo Figueira, são o diagnóstico precoce e a adesão ao tratamento. O primeiro porque a doença não tem marcadores biológicos que a identifiquem. ''O diagnóstico é baseado em critérios, mas um dos avanços são os exames de imagem que permitem visualizar no cérebro as cicatrizes das lesões causadas pelo surto. Elas são como marcadores do avanço da doença'', explica.
E o segundo desafio porque o paciente ''não vê'' o resultado da medicação - imunomoduladores, cujo objetivo é reduzir a frequência e a intensidade dos surtos, que inclusive podem ser 'silenciosos', sem nenhum sintoma. ''A adesão é um problema porque as pessoas não gostam do desconforto das injeções e de alguns efeitos colaterais que os remédios causam, como uma reação parecida com gripe. Mas, é importante ressaltar que o tratamento precoce diminui a incidência de surto na fase inicial e adia o desenvolvimento de incapacidades'', ressalta Figueira.
A jornalista viajou a São Paulo a convite da Bayer Schering Pharma.

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