Recife, 28 (AE) - O desabamento do bloco B do Edifício Enseada de Serrambí, no bairro de Jardim Fragoso, em Olinda, ocorrido ontem provocou a morte de seis pessoas - duas mulheres, dois adolescentes e duas crianças - e feriu outras 10, duas delas de forma grave. A professora Josilda Leite Martins Delgado
moradora do prédio, continuava desaparecida até o final da tarde de hoje e os bombeiros ainda revolviam os escombros à procura do seu corpo.
O bloco B tinha 8 apartamentos e 28 moradores e era independente do bloco A, que possui 16 apartamentos e foi evacuado. O Enseada de Serrambí foi construído há quase 9 anos pela Conipa Construções e Corporações Ltda. Este foi o segundo desabamento ocorrido em menos de um mês no Jardim Fragoso. No dia 12 de novembro caiu metade do Edifício Ericka, a cerca de 600 metros do Serrambí, também abruptamente, matando quatro pessoas. Nos dois casos, as causas ainda são desconhecidas.
Kaiane Carneiro Correia, de 10 anos, residente no bloco A, brincava na área do bloco B no momento do desabamento e teve a perna direita amputada. Camila da Fonseca, 13 anos, sofreu politraumatismo e encontrava-se na UTI do Hospital da Restauração. Três receberam alta hoje e o restante dos feridos - a maioria mulheres e adolescentes - apresentava quadro estável.
Quatro dos mortos pertenciam a uma mesma família - Nadja Maria da Silva Queiroz, 28 anos, suas filhas Manoela Cristina, de quatro meses e Gabriela Cristina, de quatro anos, e sua irmã Andréa Maria da Silva Padilha, 21 anos. Roberto Godói Sabóia, de 16 anos, era sobrinho-neto do dono da construtora do prédio, Francisco José de Godói. Também morreu Joana Paula Azevedo Fonseca, 17 anos, amiga de Roberto.
Os sobreviventes da tragédia foram resgatados até o final da noite de ontem por uma equipe de 150 homens do Corpo de Bombeiros, Defesa Civil do Estado, Prefeitura de Olinda e Polícia Militar. Na madrugada de hoje começaram a ser achados os corpos dos mortos, mas a grande frustração da operação de resgate foi a morte de Gabriela Cristina da Silva Queiroz. Ela morreu às 13h50 de hoje, no hospital Prontolinda, uma hora depois de ter sido resgatada, devido a parada cardíaca provocada por asfixia, agravada pela aspiração de pó e resíduos, de acordo com a cardiologista Silvana da Conti. A menina também teve o lado esquerdo do tórax afundado, costelas e o pé esquerdo fraturados.
Gabriela foi localizada sob os escombros por volta das 6 horas, quando se ouviu seu choro. Os homens trabalharam no seu salvamento por quase 7 horas, conseguindo retirá-la já desacordada. Imediatamente ela recebeu massagem cardíaca e foi submetida a manobras de ressuscitação no hospital. "Depois de tanta luta, fica difícil aceitar a morte da garotinha", afirmou o diretor da Defesa Civil, coronel Wilson Rodrigues. "Estamos todos muito tristes".
A grande dificuldade no resgate de Gabriela se deveu ao fato de seu pé esquerdo ter ficado preso entre a laje do apartamento e o sofá e pelo perigo de rompimento dessa laje, que estava apoiada em uma estante. Qualquer movimento em falso poderia provocar o esmagamento da criança. Durante o período em que se encontrava soterrada, Gabriela conversou com os bombeiros
pediu sorvete e guaraná, que lhe foram dados em pequena quantidade, e recebeu um cilindro de oxigênio. Segundo o soldado Givanildo Rosa da Silva, ela chamava muito pela mãe.
Causas e medidas - O presidente eleito do CREA, Telga de Araújo Filho, não acredita que a ocorrência dos desabamentos seja uma coincidência. "Deve ter havido algum problema técnico que pode ser comum ou não aos dois casos", afirmou, sem querer antecipar hipóteses. "Seria uma leviandade".
Ele disse que a mesma comissão técnica que investiga o desabamento do Ericka vai trabalhar na apuração do Enseada de Serrambí. A comissão é formada pelo Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Universidade Federal de Pernambuco, Prefeitura de Olinda, Instituto Tecnológico de Pernambuco (Itep) e CREA. Em 15 de janeiro a comissão deve divulgar a conclusão da análise do Ericka.
A comissão também pretende identificar todos os prédios-caixão existentes em Jardim Fragoso e depois estender tal levantamento para toda a região metropolitana do Recife. A longo prazo, a comissão quer definir normas de execução destes prédios, já que não há uma legislação específica para este tipo de construção.
O dono da Conipa, Francisco Godói, engenheiro civil há 27 anos no ramo da construção, disse estar perplexo com o desabamento do prédio, onde moravam familiares seus. Ele disse ter a consciência tranquila de que fez tudo corretamente e quer uma apuração rigorosa que identifique o motivo da tragédia. "Se houvesse problema de material ou de erro de cálculo estrutural o prédio não esperaria 9 anos para cair", afirmou. "É algo novo que está acontecendo e que não sei explicar". Ele frisou ter sido feita sondagem do solo para indicar o tipo de fundação apropriada para o local. De acordo com pessoas residentes na área, toda a região era anteriormente de mangue.
A possibilidade de indenização dos moradores do Enseada de Serrambí só será discutida depois do laudo técnico que indicar a causa do desabamento, segundo o advogado da empresa, Rogério Batista.
Os moradores do Enseada de Serrambí estão dispostos a se mobilizar com o intuito de processar judicialmente a construtora e os órgãos públicos que também consideram responsáveis pelo desabamento, a exemplo da Caixa Econômica Federal (que financiou a compra de vários apartamentos) e a Prefeitura de Olinda. "Eles vão ficar no jogo de empurra e no final ninguém vai assumir a responsabilidade pelo que aconteceu", observou o advogado Manoel Neto Teixeira, morador do apartamento 301-A. "Temos que buscar a justiça para responsabilizá-los".

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