Derrota regional enterra sonho de Menem
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sábado, 20 de março de 1999
Por Ariel Palácios, especial para a AE 
Buenos Aires, 21 (AE-REUTERS) - Hoje (21) foi o começo do fim para o sonho do presidente Carlos Menem: seu amigo e candidato do Partido Justicialista (peronista) ao governo da Província de Catamarca, Ramón Saadi, foi derrotado por larga margem pelo oposicionista Oscar Castillo.
Menem havia apostado seu futuro político na eleição dessa empobrecida província que, fora de sincronia, realizou o pleito sete meses antes das eleições nacionais. Fato sem precedentes na história da província, que nunca havia visto um presidente conduzindo pessoalmente no local a campanha eleitoral na reta final, Menem foi a Catamarca diversas vezes nas duas últimas semanas.
Ele esperava que sua presença fosse suficiente para dar a Saadi uma vitória cujo principal beneficiário seria o próprio Menem: ela serviria de trampolim para lançar sua candidatura à segunda reeleição.
Um multidão de assessores de Menem tinha-se instalado na província para tentar uma infrutífera virada na derrota que as pesquisas indicavam para Saadi. Mesmo os cartazes de propaganda política davam a entender que o que se jogava ali não era somente um governo provincial, mas o destino político do presidente: eram mais frequentes as faixas com os dizeres "Menem 99" do que "Saadi governador".
O candidato à presidência do país pela coalizão de oposição Aliança União Cívica Radical (UCR)-Frente País Solidario (Frepaso), Fernando De La Rúa, também havia ido a Catamarca para deixar claro que ali não estava sendo disputado somente uma eleição provincial, e sim, o próprio poder nacional.
Os principais líderes do país foram a esta província no sopé da cordilheira dos Andes de somente 194 mil eleitores (0,7% do eleitorado nacional), sabendo que o resultado deste domingo daria o tom político para os próximos meses.
O único grande ausente foi o principal inimigo de Menem dentro do peronismo, e um dos pré-candidatos do partido à presidência do país: o governador da província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, que não colocou os pés em Catamarca. Ele permaneceu em seu sítio no município de San Vicente, saboreando a derrota de Saadi, que por tabela, era a derrota definitiva de Menem.
Segundo as primeiras bocas de urna após o encerramento da votação, Castillo teria vencido Saadi com 56,2 % dos votos. Saadi teria ficado com 39,2 %. Mas, quais são os reais vencedores desta jornada? Por um lado, o governador Duhalde, que apesar do prejuízo de ver seu próprio partido perder uma eleição provincial, obtém o lucro da derrota de Menem, que esteve envolvido pessoalmente na campanha.
Por outro lado, também é vencedor De La Rúa. Seu partido venceu em Catamarca e pretende arrematar esta vitória com o plebiscito sobre a reeleição de Menem, marcado para o próximo dia 29. Este plebiscito será somente na cidade de Buenos Aires. Segundo as pesquisas, 75% dos portenhos votarão contra Menem.
"Você consegue imaginar o presidente Carlos Menem passando a faixa e o bastão presidencial para seu sucessor, e deixando a Casa Rosada dando tranquilamente adeus aos granaderos, a guarda presidencial? Eu não consigo", disse à Agência Estado a jornalista Olga Wornat, uma das principais "menemólogas" do país.
Embora desejada por muitos, essa imagem era difícil de conceber. Após uma década aferrado ao poder, e desfrutando dele como poucos de seus antecessores na Argentina, não foi possível para Menem conservar o partido unido a seu redor.
Em vez de ter descomprimido a pressão interna para uma renovação dentro das lideranças, e participado de forma onipotente na designação de seu sucessor, Menem apostou nele mesmo e errou na jogada: insistiu em driblar a Constituição para conseguir um terceiro mandato consecutivo, algo proibido pela Carta Magna.
Seus antigos partidários começaram a abandoná-lo para passar às fileiras de Duhalde, configurando o que diversos analistas consideram que será uma crise de poder mais grave que a sofrida nos últimos meses do governo do ex-presidente Raúl Alfonsín.
O sabor amargo deste fim de semana poderia ser prolongado até segunda-feira para Menem. Amanhã, a Corte Suprema anunciaria um parecer contrário aos pedidos de que fosse permitida a reeleição do presidente. Até há poucos meses, a Corte Suprema era simpática à idéia de reeleição, mas com o atual esvaziamento de poder na Casa Rosada, os juízes foram mudando lentamente de posição. Especula-se que até o fim da semana, Menem irá reunir-se com Duhalde para negociar uma transição que seja "honrosa" para o atual inquilino da Casa Rosada.


