Derrota em Buenos Aires enfraqueceria Frepaso
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terça-feira, 19 de outubro de 1999
Por Ariel Palacios 
Buenos Aires, 20 (AE) - A religião como arma pré-eleitoral está sendo a forma como o peronismo pretende garantir sua vitória na província de Buenos Aires, a maior e mais importante do país, onde concentram-se 37% dos eleitores.
O candidato peronista ao governo da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, acusa a candidata da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso, Graciela Fernández Meijide, de ser "a favor do aborto, anticristã e atéia". Fernández Meijide, mãe de um desaparecido durante a Ditadura, é integrante do Frepaso, partido que dentro da coalizão "Aliança" reúne parte dos representantes da esquerda do país e defensores dos Direitos Humanos.
As declarações de Ruckauf, atualmente vice-presidente da república, dividiram a Igreja, marcando distâncias entre progressistas e conservadores. O candidato peronista obteve o apoio de monsenhor Emilio Ogñenovich, bispo de Luján (o principal centro de peregrinação do país), que aparece em uma publicidade pedindo o voto a Ruckauf.
Somente uma pequena parte da Igreja posicionou-se declaradamente a favor de Ruckauf. Contra sua estratégia, diversos bispos divulgaram um documento onde rechaçam "o uso da religião para atacar um candidato ou manipulação do espírito religioso de nosso povo". Entre eles, assinaram o documento monsenhor Rafael Rey, presidente da Cáritas, e o bispo Miguel Hesayne, ambos costumeiros críticos do modelo econômico aplicado pelo presidente Carlos Menem.
Além dos bispos, assinaram o documento uma dezena de pastores evangélicos e os principais rabinos do país. As declarações de Ruckauf causaram mal-estar dentro do próprio peronismo e uma reação da imprensa: o jornal "Página 12" fez uma fotomontagem na capa mostrando o vice-presidente disfarçado como o inquisidor espanhol Torquemada.
O analista Oscar Raúl Cardoso relativizou o espaço na mídia que a polêmica sobre o aborto está tendo nos últimos dias de campanha. Ele disse à AE que os bispos aliados a Ruckauf "possuem pouca força" e que hoje em dia "a Igreja não tem tanta influência na Argentina". Segundo ele, "o tema do aborto ressurge em cada eleição". São realizados 500 mil abortos por ano na Argentina, o que movimenta US$ 150 milhões.
As declarações de Ruckauf elevaram o tom de uma campanha eleitoral que já havia perdido seu clímax por causa das pesquisas que indicam que Fernando de La Rúa, candidato da Aliança à presidência do país, venceria o peronista Eduardo Duhalde nas eleições deste domingo com ampla vantagem. No entanto, depois da conquista da presidência do país, a obtenção do governo da província de Buenos Aires é vista como o segundo principal objetivo na campanha dos partidos.
A perda da província de Buenos Aires por parte do Frepaso será um duro golpe para este partido, que já está enfrentando dificuldades para manter sua parcela de poder dentro da coalizão. Ao contrário da centenária UCR, dona de uma estrutura de comitês por todo o país, a jovem e enxuta estrutura do Frepaso construiu-se baseada na esperta utilização da mídia. Por esse motivo, este partido quase sem militantes, mas que nas eleições presidenciais de 1995 obteve 20% dos votos, precisa obter cargos executivos para dali formar sua estrutura de poder.
O sucesso do Frepaso na mídia ocorreu através da denúncia constante dos casos de corrupção do governo do presidente Carlos Menem. Por esse motivo, Menem possui especial interesse na derrota da candidata frepasista, e colocou dois de seus principais assessores na campanha de Ruckauf: ex-embaixador no Vaticano, Esteban Caselli, e um dos intelectuais do partido, o habilidoso Jorge Assís.
"Seria um desastre" é o comentário mais ouvido entre os frepasistas sobre uma eventual derrota de Fernández Meijide. Com a província de Buenos Aires em seu poder, os peronistas teriam o domínio de todas as províncias importantes do país. Derrota para a Aliança, mas catástrofe para o Frepaso, que precisará como última tentativa vencer as eleições para a prefeitura da capital argentina a meados do ano que vem, para não entrar em total colapso de prestígio.
Uma das saídas especuladas é a candidatura de Carlos "Chacho" álvarez à prefeitura de Buenos Aires. O problema é que álvarez é o candidato da Aliança à vice-presidência do país. Sua eventual saída desse cargo somente após seis meses da posse seria mal vista, além de correr o risco de desarticular a coalizão.


