Lima, 08 (AE) - É no momento em que as cifras da luta guerrilheira no Peru deixam de ser mera estatística para ganhar identidade, rosto e família que os estrangeiros começam a entender por que Alberto Fujimori é popular a ponto usar todas as armas ao seu alcance para obter um novo mandato presidencial - o terceiro consecutivo.
Embora sua segunda reeleição esteja ameaçada pelo crescimento da candidatura do economista Alejandro Toledo, Fujimori tem o total apoio, por exemplo, dos funcionários do Hotel María Angola
em Lima.
Muitos deles trabalham no hotel há vários anos. E têm lembranças dolorosas da fúria sanguinária da guerrilha maoísta Sendero Luminoso. Em 1995, o Sendero já agonizava ante o implacável assédio das forças de segurança de Fujimori. Mas teve tempo de desfechar o que seria seu último grande ataque urbano, lançando um carro-bomba com 50 quilos de dinamite contra o hotel.
Dois funcionários morreram: o recepcionista Miguel Alvarez e o porteiro Júlio Cerpa. Um taxista, que estava na porta do hotel, foi a terceira vítima. "Fujimori deu fim ao Sendero. Só por isso já merece meu voto", diz Joaquín Carmona, mensageiro do hotel.
"Nem gosto de lembrar disso. Ainda sonho com o barulho da explosão e com os vidros se rompendo como se fossem de papel", acrescenta o recepcionista, Martín Soza.
Em vários pontos do país, a opinião dos eleitores é parecida com a do mensageiro do María Angola. Quase todos esses eleitores sabem que Fujimori tem um caráter autoritário.
O próprio Fujimori apregoa que o país ainda não é "uma democracia perfeita", nem se constrange de declarar que "o Peru não é o lugar ideal para os direitos humanos". Mas ninguém lhe nega o mérito de poder dizer que o povo peruano deve agradecer a ele pela vitória contra a insurgência esquerdista.
Também tem razão quando se gaba de ter dominado uma das mais galopantes hiperinflações do mundo. Depois de ter surgido como fenômeno eleitoral em 1990, derrotando o escritor peruano Mario Vargas Llosa, Fujimori recebeu um país arrasado pela inépcia das administrações anteriores, pela luta guerrilheira pelo florescente tráfico de drogas, pela quase incontrolável inflação e por uma recessão aparentementemente irreversível.
A administração Alan García, do centro-esquerdista Apra, foi particularmente terrível para o país. Mergulhado na crise, cresce o número de greves e o terror senderista se intensifica.
"Esse país era o próprio inferno", diz um cabo eleitoral de Fujimori, Norberto Flores, enquanto distribui viseiras numa rua de Lima. "Fujimori soube usar o fato de ter liquidado com o Sendero Luminoso e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru para incutir na mente das pessoas que tudo voltará a ser como antes no momento em que ele deixar o poder", disse à Agência Estado o prefeito de Lima, Alberto Andrade, candidato à presidência nas eleições de hoje.
"Ao transformar Alan García numa figura demoníaca, lançou no mesmo caldeirão todos os integrantes da classe política, com isso desarticulou a organização partidária com a intenção de debilitar instituições e, por consequência, a própria democracia."
Com a posse do novo presidente, os militares receberam do Executivo amplos poderes para reprimir o terrorismo. Depois dessa medida, os quartéis viram em Fujimori o parceiro ideal para que fossem ainda mais longe.
O golpe veio em 1992. Fujimori fechou o Congresso, dissolveu o Judiciário, suspendeu garantias constitucionais e reiterou sua declaração de guerra aos guerrilheiros - que a essa altura vinham sendo financiados em troca de proteção aos produtores de coca do Vale do Rio Huallaga, na Amazônia peruana.
Um pacote recessivo controlara a inflação e a ofensiva maciça das Forças Armadas contra o terror começava a mostrar seus primeiros resultados. Cinco meses após o "autogolpe", Fujimori exibiu, preso numa jaula, o número 1 do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán.
Em 1995, depois de ter promulgado uma Constituição que lhe permitia que se candidatasse à reeleição, foi à guerra com o Equador por uma antiga questão fronteiriça, resolvida com assinatura de um tratado de limites em 1998. Venceu as eleições no mesmo ano com 64% dos votos, derrotando outra personalidade respeitada no país, o ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) Javier Pérez de Cuellar.
Antes, em abril de 1997, pôs fim a uma ousada operação do MRTA
que tomara de assalto a residência do embaixador japonês em Lima durante uma festa, fazendo mais de 400 reféns. Um dos reféns mais importantes, o então chanceler peruano, Francisco Tudela, é hoje candidato a vice-presidente na chapa de Fujimori.
Quando os 14 sequestradores mantinham apenas 73 reféns, uma operação de comandos tomou o cativeiro de assalto. Todos os guerrilheiros foram mortos.

mockup