Deputado quer denunciar violência em Cabrália à OEA
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sábado, 22 de abril de 2000
Por Biaggio Talento 
Porto Seguro, BA, 23 (AE) - O governador da Bahia, César Borges (PFL), classificou de "positivo" o balanço das comemorações dos 500 anos do Descobrimento, apesar do conflito entre policiais militares e manifestantes ontem (22) de manhã em Santa Cruz Cabrália. Por causa da violência o deputado Nélson Pelegrino (PT-BA), 1º vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, vai sugerir que seja formulada uma denúncia oficial contra os governos da Bahia e Brasil à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), presidida por Hélio Bicudo.
Na visão do governador "seria um desrespeito aos convidados oficiais e a programação, ocorrerem manifestações em Porto Seguro", disse, defendendo a ação da Policia Militar com apoio dos órgãos de segurança do governo federal, que impediram o acesso de manifestantes em Porto Seguro. "Além das autoridades, entre as quais os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jorge Sampaio, havia milhares de turistas na cidade e a presença dos menifestantes poderia causar um problema muito grande", disse, preferindo destacar os "aspectos positivos" da festa. "Investimos nos últimos três anos cerca de US$ 150 milhões para melhorar a infra-estrutura de Porto Seguro que é uma das cidades mais procuradas pelos turistas", disse.
Borges garante ter tentado negociar, ao lado do governo federal, com todas as organizações e entidades que organizaram eventos paralelos em Porto Seguro, assinalando que faltou pouco para o entendimento. "Nós ajudamos os índios a organizarem a conferência deles e concordamos com a manifestação dos sem-terra em Porto Seguro no dia 17, mas deixamos claro que não permitiriamos a baderna", contou, lamentando que na véspera do dia do Descobrimento, o Partido dos Trabalhadores e o Movimento dos Sem-Terra tenham descumprido o acordo, passando a incitar as pessoas. Sobre a decretação, pelo juiz de Cabrália Aírton Pinheiro, da prisão do coronel Wellington Muller que comandou a repressão no sábado, Borges preferiu não comentar. "Não sei se ele (o juiz) teria autoridade e base legal para isso. O coronel Muller desafiou o juiz afirmando que ninguém o iria prender diante de sua tropa, como de fato ocorreu.
Hoje, o comando da PM não quis se pronunciar sobre o assunto e tampouco se o oficial seria efetivamente apresentado para ser preso. Muller é conhecido pela sua truculência. Foi ele que comandou a destruição da monumento dos povos indígenas que estava sendo construído no local onde foi realizado a primeira missa no Brasil. Em 97, mesmo sem ordem judicial, o oficial derrubou vários casebres numa encosta próxima ao zoológico de Salvador. Não respeitou nem os deputados da oposição que estavam no local. De acordo com os oposicionistas, Muller é sempre requisitado quando o governo quer realizar uma dessas operações chamadas de "jogo bruto".
O abuso de autoridade, o cerceamento ao direito de ir e vir e a violência, ocorridos em Cabrália são argumentos suficientes conforme o deputado Pelegrino, para denunciar o Brasil aos organismos internacionais de defesa de direitos humanos. "Vamos entrar com todas as ações cabíveis e acompanhar o Ministério Público para que faça o mesmo", disse. Sobre essas ações, o governador reagiu com indiferença. "Paciência, o Estado vai se defender".
Na linha de frente da marcha índigena do sábado , a senadora Marina Silva (PT-AC) passou por um sufoco, durante a repressão da polícia. Uma bomba de gás lacrimogênio caiu próximo a seu pé. "Sou alérgica e se inalasse o gás poderia até morrer", disse, lembrando que na hora foi salva por uma amiga que a puxou para um barranco que vai dar na praia. "Quando a gente chegou na areia deu de frente com a cavalaria", contou, explicando, contudo, que os policiais não a agrediram. "A democracia brasileira só tem espaço para a casa grande, a senzala continua de fora", protestou.


