São Paulo, 16 (AE) - A principal característica política de André Franco Montoro foi a moderação. Inspirou-se sobretudo na doutrina da democracia cristã, com a qual se iniciou na carreira política e à qual permaneceu fiel até a morte. Quarta-feira (14)
quando sentiu-se mal e foi encaminhado para o Instituto do Coração, ele estava justamente embarcando para um encontro organizado por democratas cristãos, no México, e destinado à discussão de modelos sustentados de desenvolvimento social.
Católico praticante, Montoro sempre sonhou com uma espécie de terceira via de desenvolvimento, a meio caminho entre os exageros do capitalismo americano e o socialismo. O que não se podia tolerar de maneira alguma, disse mais de uma vez, era o subdesenvolvimento, que considerava a pior forma de violação dos direitos humanos.
Defendendo essas opiniões, ele marcou de maneira nítida a cena brasileira. Nos anos 70 e 80, foi uma das figuras centrais no processo de redemocratização do País, ao lado de outros líderes políticos, como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães.
Filho de gráfico, Montoro nasceu na capital paulista no dia 14 de julho de 1916, numa época em que o mundo vivia sob o impacto da 1ª Guerra Mundial e da ascensão do socialismo na Rússia. Depois de completar os estudos secundários, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, no Largo São Francisco. Ele também se licenciou em pedagogia e iniciou suas atividades profissionais dividido entre o ensino e a advocacia.
Ingressou na política oficial pelo Partido Democrata Cristão (PDC), que era abertamente incentivado pelo cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta - arcebispo de São Paulo entre 1944 e 1964. Ao falar de sua carreira, Montoro, em mais de uma ocasião, referiu-se à influência do enérgico cardeal, que mantinha constantes contatos com jovens católicos da classe média e do meio operário.
D. Carmelo seguia a orientação de Roma, preocupada com o avanço do comunismo em diversas partes do mundo e principalmente na Itália, centro do catolicismo. A doutrina social da Igreja naquele período histórico ganhou um forte impulso.
O primeiro cargo político para o qual Montoro elegeu-se foi o de vereador, em 1952. Não chegou, porém, a concluir o mandato. Renunciou para candidatar-se a um cargo de deputado na Assembléia Legislativa. Chegou àquela casa em 1955, com prestígio suficiente para ser eleito seu presidente.
Ainda como deputado estadual, em 1957 ele viajou para a Bélgica, onde representou seu partido no Congresso Internacional da Democracia Cristã. O trabalho que levou para aquele encontro tratava da integração econômica, política e social dos países da América Latina. Esse seria um de seus temas prediletos, ao longo de quase meio século militância política. "Para a América Latina, a opção é clara: integração ou atraso", costumava dizer.
Ele também não concluiu o mandato de deputado estadual. Em 1958, candidatou-se e foi eleito para a Câmara Federal, onde reafirmou seu prestígio, tornando-se líder do PDC.
Na Câmara, a habilidade de Montoro como articulador político destacou-se de maneira mais clara. Em 1961, diante da crise institucional provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros e da ameaça de um golpe, adotou-se no País o regime parlamentarista, que teve Tancredo Neves como primeiro-ministro. Ele então convidou Montoro para dirigir o Ministério do Trabalho e da Previdência.
O representante paulista ficou só um ano no cargo. Foi tempo suficiente para demonstrar mais uma vez sua confiança na doutrina democrata cristã. Deu prioridade a questões sociais, enfatizando o problema da casa própria para os trabalhadores e a necessidade de unidade em torno dos sindicatos.
Em 1965, quando o País já vivia sob o regime de exceção instituído pelos militares, Montoro tentou sem êxito eleger-se prefeito de São Paulo. No ano seguinte, quando os antigos partidos foram extintos, surgindo artificialmente em seu lugar o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (Arena), ele ficou com o MDB.
Montoro destacou-se de diversas maneiras como parlamentar nos anos do regime de exceção. As questões que envolviam os direitos dos trabalhadores estavam entre as prioridades do parlamentar. Seu livro ABC dos Direitos do Trabalhador era uma espécie de cartilha para muitos sindicatos.
Em 1970, ele foi eleito para o Senado com dois milhões de votos. Sob os limites do Ato Institucional n.º 5, que se havia abatido sobre o País em 1968, Montoro teve uma atuação digna como senador, empenhando-se na defesa da abertura política, nos limites do liberalismo.
Sua atuação foi reconhecida pelos eleitores que o reelegeram em 1978 com 4,8 milhões de votos. Por essa ocasião ele já liderava a oposição no Senado e presidia o MDB.
Em 1982, nas primeiras eleições para o cargo de governador após o movimento militar de 1964, Montoro chegou ao Palácio dos Bandeirantes com uma quantidade avassaladora de votos. Foram 5,5 milhões - mais do que o dobro do obtido pelo segundo colocado. Os votos não indicavam apenas o prestígio de que desfrutava, mas também o crescente descontentamento dos eleitores com o regime de exceção.
No início de seu governo, ele enfrentou protestos e greves constantes. Mas o período entre 1982 e 1986, será lembrado principalmente por avanços na área social e na área administrativa no Estado. Na opinião de José Mário Brasiliense Carneiro, da Fundação Konrad Adenauer, as principais marcas do governo Montoro foram a descentralização e a participação da sociedade.
Também foi durante o governo de Montoro que Mário Covas, cassado pelos militares, retornou à cena política, como prefeito nomeado de São Paulo.
No plano federal, a principal luta política de Montoro passaria ser pela volta das eleições diretas para a Presidência - com a qual sonhou. Ele será lembrado como um dos articuladores do histórico comício das Diretas-Já, que reuniu um milhão de pessoas no Vale do Anhagabaú, em janeiro de 1984. Com a derrota da emenda pelas diretas-já no Congresso, ele apoiou Tancredo Neves.
Atribui-se a Montoro a entrada de intelectuais no PMDB, o partido que substituiu o MDB na reorganização partidária. Entre eles estariam José Serra e Fernando Henrique Cardoso.
Com a redemocratização, eles discordaram dos rumos que o partido tomou e ajudaram a criar o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ao lado de políticos como José Richa e Tasso Jeressaiti.
Em 1994, após um longo afastamento das urnas, Montoro foi reeleito para a Câmara Federal, com cerca de 200 mil votos - uma das maiores votações do País. Foi sua última vitória expressiva. A partir daí começaria o declínio de influência política.
Nas discussões sobre a reforma da previdência, ele desgastou-se publicamente quando seus adversários revelaram que ele recebia cinco aposentadorias. Montoro respondeu que tinha orgulho de todas, mas que na verdade só usava duas - as outras eram destinadas a estudantes carentes. No ano passado ele reelegeu-se para a Câmara, mas com uma quantidade inexpressiva de votos.
Montoro era casado com dona Luci, e tinha sete filhos. Moderado e inspirado pelo cristianismo, Montoro foi fiel aos seus princípios, em defesa do desenvolvimento do País.

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