Deputado do PFL movimenta R$ 500 mil em 1 ano
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terça-feira, 18 de abril de 2000
Por Murilo Fiuza de Melo 
Vitória, 19 (AE) - O presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo, José Carlos Gratz (PFL), acusado de ser um dos líderes do crime organizado no Estado, movimentou, em menos de um ano, mais de R$ 500 mil na conta corrente dele.
A quebra de sigilo bancário do deputado, pedida pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados, mostra que ele teria emitido cheques nominais, no valor total de R$ 154 mil, em favor de quatro deputados estaduais. Gratz recebeu ainda suposto depósito, não identificado, de R$ 588 mil. O deputado, que iria depor amanhã (20), enviou um ofício à comissão, alegando que não poderia comparecer porque, hoje, viajaria com a família.
"Existe movimentação financeira na conta do deputado que precisa ser explicada, mas vamos obedecer os requisitos legais para que ele seja ouvido", disse o deputado Fernando Ferro (PT-PE), presidente da subrelatoria da CPI para o Espírito Santo.
A CPI não descarta que Gratz possa ter cometido crime de sonegação fiscal. Em dezembro, ele disse à comissão que, na declaração de Imposto de Renda (IR) de 1998, havia apenas os rendimentos como parlamentar, no total de R$ 72 mil. Entre os parlamentares beneficiados, estão o presidente da CPI do Narcotráfico capixaba, Paulo Loureiro (PFL), e o líder do governo na Assembléia, Sebastião Camilo (PSDB).
Loureiro recebeu um cheque de R$ 40 mil e outro de R$ 50 mil - este último, depositado na conta bancária da empresa dele, a Construtora Casa Linda. Para Camilo, Gratz deu R$ 20 mil. Os outros dois deputados beneficiados seriam Matheus Vasconcellos (PFL), que teria recebido R$ 5 mil, e Robson Neves (sem partido)
R$ 39 mil. Os integrantes da CPI acreditam que Gratz deposita dinheiro com frequência na conta de pelo menos nove deputados. Os cheques nominais seriam uma forma de garantir a vinculação dos parlamentares ao presidente da Câmara.
"Todos os cheques que eu emiti são meus e confirmo cada um deles", afirmou Gratz. "O que eles (a CPI) têm de saber não é a emissão dos cheques porque, no meu dinheiro, mando eu, mas, sim, se dentro da minha conta corrente existe algum dinheiro escuso." O deputado negou, porém, que tivesse recebido um depósito de R$ 588 mil. "Toda a minha movimentação bancária não chega a isso", rebateu.
Gratz estranhou a divulgação de dados sobre a conta corrente e reafirmou que não deve nada a ninguém. "A CPI tem de ser mais séria e investigar primeiro o meu sigilo fiscal para saber se há alguma coisa errada", disse.
Camilo confirmou que recebeu R$ 20 mil do presidente da Assembléia. Segundo o líder do governo, o dinheiro foi-lhe emprestado por Gratz em 5 de março de 1999 para que ele pudesse pagar dívidas pessoais. "Foi uma operação legal; tanto que eu a declarei no meu Imposto de Renda", afirmou. Camilo disse que a dívida foi contraída a juros de poupança e será paga em 5 de junho.
Neves negou que tenha recebido cheque de R$ 39 mil. Segundo o parlamentar, o valor foi mais alto: R$ 54.200,00. O suposto empréstimo teria sido, segundo Neves, para que ele desse entrada na compra de um escritório na Praia do Canto, em Vitória. O presidente da CPI do Narcotráfico capixaba também confirma ter recebido dinheiro do presidente da Assembléia.
"Mas foi um só cheque, de R$ 50 mil, para pagar uma loja que ele comprou de mim", disse. A loja está localizada no Shopping Beach Tower, na Praia do Canto. Gratz, porém, tratou de desmentir Loureiro. "Eu comprei um imóvel dele e, para isso, dei-lhe dois cheques: um de R$ 40 mil e outro de R$ 50 mil." Procurado, Vasconcellos não foi encontrado.


