Rio, 03 (AE) - O deputado federal Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), um dos integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, criticou hoje o ministro da Defesa, Élcio álvares, em debate sobre violência e tráfico de drogas, organizado pelo Ministério Público Estadual. "É inadmissível que o ministro mantenha um escritório que defende o pior da criminalidade no Espírito Santo", afirmou. "Num país sério, isso, no mínimo, derruba um ministro."
Biscaia, que é ex-procurador-geral de Justiça do Rio, frisou
no entanto, que não estava acusando álvares de ligação com o crime organizado. A assessora especial do Ministério da Defesa, Solange Resende, disse que todas as explicações do suposto envolvimento do ministro Élcio álvares com o crime organizado, como aponta o relatório do delegado Francisco Badenes, foram dadas em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados há cerca de um mês. "Apesar de ter sido convidado, o deputado Biscaia não compareceu à audiência, mas os documentos estão lá para que ele possa consultar", disse. Ela explicou que o ministro já interpelou judicialmente o delegado Badenes.
Solange afirmou ainda que o único caso que Élcio álvares defendeu, como advogado, foi o que envolveu o comerciante Alberto Dariva, denunciado, em 29 de março de 1990, por formação de quadrilha e receptação pelo Ministério Público. Ele integrava uma quadrilha especializada em roubo e furtos de carros, trocados por cocaína na Bolívia, que foi desmantelada pela Polícia Federal capixaba na chamada "Operação Marselha".
"Ele foi abolvido", ressaltou Solange. Dariva e os outros 22 integrantes da quadrilha foram, na realidade, beneficiados pelo instituto da prescrição, já que a sentença só saiu em 12 de maio de 1999 - nove anos depois de oferecida a denúncia. Os dois crimes cometidos pelo grupo - artigos 288 (formação de quadrilha) e 180 (receptação) prescrevem depois de seis e oito anos, respectivamente.
Visita - Biscaia chega ao Espírito Santo na terça-feira para investigar preliminarmente as denúncias sobre o tráfico de drogas e o jogo do bicho no Estado. "Houve dificuldades de natureza política para que a CPI conseguisse chegar ao Espírito Santo", disse. Ele acusou o governador do Espírito Santo, José Ignácio Ferreira (PSDB) de ser "refém" do presidente da Assembléia Legislativa, José Carlos Gratz (PFL) - que não esconde ter sido banqueiro do bicho.
Embora Biscaia não tenha esclarecido que tipo de dificuldades a CPI enfrentou, Gratz costuma dizer que é muito amigo do deputado federal Magno Malta (PTB-ES), presidente da comissão. Biscaia informou que vai tentar tomar o depoimento de Gratz na quarta ou quinta-feira, mas lembrou que, como presidente da assembléia, ele pode se recusar a comparecer.
O deputado não poupou críticas ao trabalho da própria CPI. "Estamos com uma pilha de documentos, resultante da quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico dos suspeitos e temos que examinar tudo", disse.
"Não adianta ficar ouvindo cada vez mais pessoas, porque as provas documentais são mais fortes do que as testemunhais". Biscaia mostrou-se até mesmo contrário ao depoimento à CPI de Alda Inês dos Anjos Oliveira, ex-namorada do traficante carioca Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. "Se ela já tinha prestado depoimento ao Ministério Público, para que ser convocada novamente, só para desmentir tudo?", questionou.
Na terça-feira, os sub-relatores do Rio deverão ouvir a boliviana Lila Lopez e o norte-americano John Michael White, que estão presos na Polícia Federal do Rio. Eles são suspeitos de pertencer a uma quadrilha que levaria cocaína em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB). Também deverá ser ouvido o doleiro Khaled Nawaf Aragi, que está preso, acusado de fazer parte do bando de Beira-Mar. A CPI requisitou também o relatório da PF sobre a operação na qual foi preso o traficante Marco Antonio da Silva Tavares, o Marquinho.

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