Alguns levantamentos estatísticos apontam que a depressão atinge entre 15% e 20% da população, uma cifra assustadora quando se leva em conta que a doença aumenta o risco de problemas cardiovasculares e que 15% dos deprimidos tentam suicídio. No entanto essa incidência pode estar superestimada.‘‘Os critérios da Classificação Internacional das Doenças e da Associação Psiquiátrica Americana que definem a depressão são excessivamente abrangentes’’, afirma José Alberto Del Porto, professor titular de psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
‘‘Com isso, podem ser feitos diagnósticos falsos positivos.’’ Falso positivo, em medicina, é um resultado de teste ou exame que aponta a presença da doença, mas, na verdade, ela não existe. Del Porto acredita que a frequência verdadeira da depressão esteja próxima aos 5,8% da população, como mostrou estudo da Universidade de Yale, da Califórnia, e da Universidade Johns Hopkins no início dos anos 80.
‘‘O problema de muitos desses levantamentos é que eles são realizados por entrevistadores leigos, que foram treinados para reconhecer certos critérios. Por isso, é preciso muita cautela para interpretar esses dados’’, diz Del Porto. Para o professor da Unifesp, os sintomas de lentidão psicomotora (ou seja, de raciocínio e de movimentos), as alterações do sono e dos ritmos biológicos de produção de substâncias ‘‘diferenciam a depressão das demais formas de sofrimento psíquico’’.
Uma consulta psiquiátrica ou psicológica de uma hora seria suficiente para entender o problema e fazer o diagnóstico correto. ‘‘A depressão é uma doença orgânica e não apenas psicológica. Existem disfunções químicas no cérebro que acometem o indivíduo como um todo. Ela não é um defeito moral, uma falta de caráter ou preguiça’’, diz Ricardo Moreno, psiquiatra e coordenador do Grupo de Doenças Afetivas (Gruda), do Instituto de Psiquiatria da USP.
Por isso, são necessárias medicações no tratamento. Os remédios atuais modificam as concentrações dos neurotransmissores (substâncias que fazem a comunicação dentro do sistema nervoso) nas sinapses (áreas de interação entre as células nervosas).
‘‘Os antidepressivos funcionam apenas nos deprimidos. Eles não causam euforia em indivíduos normais, como os estimulantes (anfetaminas), e não modificam a personalidade’’, diz Moreno, acrescentando que‘‘agora, a farmacologia sai da periferia das células para atuar nos mecanismos celulares internos, por meio de substâncias chamadas neuropeptídeos.’’

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