Considerada doença de adultos, a depressão tem aparecido cada vez com mais freqüência em crianças e adolescentes. Mas diagnosticá-la, segundo especialistas, é um processo complexo, já que a criança não consegue verbalizar seus sentimentos e cada idade apresenta sintomas diferentes.
  ‘‘O diagnóstico exige outros instrumentos de análise, que incluem a observação de rendimento escolar e relacionamentos familiar e social’’, afirma o psiquatra Gustavo Schier Dória, supervisor do Ambulatório de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal do Paraná (CENEP/HU/UFPR). Ele esteve em Londrina durante a 2ªJornada Paranaense de Neurologia e Psiquiatria Infantil, uma iniciativa da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI), em parceria com a Associação Médica de Londrina (AML) e Universidade Estadual de Londrina (UEL).
  Dória explica que alguns sintomas podem ser observados em crianças com depressão: crises de explosão ou tristeza, perda de interesse nas atividades, humor mais irritadiço ou instável, cansaço excessivo e muitas queixas somáticas, como dores de cabeça e abdominais (veja quadro).
  A doença, segundo o médico, ainda pode apresentar outros sintomas como insônia, ansiedade, obesidade ou dificuldade para ganhar peso, excesso de manias e rituais. ‘‘Além disso, o desempenho escolar piora’’, afirma. Pesquisas apontam que 2% das crianças podem ter depressão. ‘‘É um número alto’’, alerta.
  Uma das dificuldades de diagnosticar depressão, segundo Dória, é que a criança pode ter outros transtornos, que possuem sintomas comuns, e manifestar vários deles, como euforia, tristeza ou irritabilidade, no mesmo dia ou na mesma semana. Caso do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou do transtorno obsessivo compulsivo (TOC).
  Hoje, fala-se até em bebês com depressão. O que chama a atenção nesse caso é que ele não se desenvolve, chora à toa, e está sempre irritadiço, sem nenhum sintoma clínico que explique esse comportamento.
  As causas para a depressão podem ser genéticas ou ambientais. ‘‘A hipótese é que algumas famílias teriam tendência para a doença’’, explica o psiquiatra. Mas fatores como uma perda significativa, divórcio dos pais ou pais dependentes de drogas ou com alterações psicológicas também são causas.
  ‘‘Hoje o número de casos de depressão pode estar aumentando porque os fatores estressantes também estão maiores. As crianças sofrem muitas exigências, tanto dos pais, quanto da própria sociedade’’, avalia o psiquiatra. Ao se fazer o diagnóstico também é necessário pesquisar causas mais sérias, como maus-tratos e abuso sexual (leia mais nesta página).
  O tratamento da depressão infantil, segundo o médico, deve ser multiprofissional. E pode, ou não, incluir medicamentos, dependendo de avaliação médica, que vai diferenciar uma manifestação leve de uma severa. O tratamento inclui necessariamente terapia psicológica.
  Segundo o psiquiatra, pesquisas mostram que a depressão é uma doença crônica e recorrente, por isso é necessário cuidados para evitar crises futuras. ‘‘Mas se é feito um bom tratamento, fortalecendo o ego da criança para enfrentar o estresse, é possível evitar novas crises. E só a psicoterapia pode aliviar fatores estressantes’’, avalia.

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