Asmara (AE-REUTERS) - Michael Mussie viveu a vida influente de um bem-sucedido empresário etíope por muito tempo. Nascido em Wello em 1946, ele teve uma boa educação e trabalhou duro antes de se tornar líder das operações no coração da áfrica da mineradora gigante de ouro Ashanti. Ele tinha uma bela casa em um importante subúrbio de Addis Ababa, passava as férias no exterior com um passaporte etíope, se misturava nos importantes círculos políticos e de negócios e apoiava o governo da Etiópia. Assim, ele ficou mais que surpreso quando se viu expulso no dia 18 de julho do ano passado por ser considerado eritreu.
Mussie é um das mais de 50 mil pessoas que foram expulsas pela Etiópia desde que o conflito na fronteira com a Eritréia - que ganhou independência de seu vizinho do sul em 1993 - entrou em erupção em maio deste ano. Alguns eram eritreus trabalhando na Etiópia, mas milhares de outros, como Mussie, sempre se consideraram etíopes. "Eu nunca vivi na Eritréia", ele disse. "Nasci na Etiópia, fui educado na Etiópia e trabalhei na Etiópia. De onde eles tiraram a idéia de que eu era um eritreu?".
A Etiópia garante que só deportou eritreus com ligações com o governo, mas dezenas de deportados contaram histórias similares sobre como eles foram expulsos meramente por serem eritreus étnicos. "Quando os problemas começaram, alguns oficiais vieram à minha casa e sugeriram, porque meus parentes eram eritreus, que eu deveria iniciar um movimento para derrubar o governo da Eritréia", disse Mussie. "Eu perguntei a eles Como eu posso fazer isso? Sou um etíope. Ninguém na Eritréia irá me levar a sério". Mas os oficiais etíopes disseram a ele para organizar a coisa toda - escrever press releases, formar um comitê, levantar dinheiro - desde que ele concordasse em ser identificado com isso. Quando ele recusou, foi levado para um centro de detenção, jogado em um ônibus na fronteira da Eritréia e recebeu a ordem de "voltar para casa".
Os deportados já estão se integrando à sociedade eritréia, mas para muitos o choque de serem evitados em um país que eles sempre consideraram seu lar está sendo muito difícil. "Não sei falar Tigrinya (a principal língua da Eritréia)", disse Sayel Mehrlassie, uma empresária que dirigia um restaurante e clube noturno em Addis Ababa até ser expulsa no mesmo ônibus que Mussie. "Eu nunca em minha vida coloquei os pés na Eritréia até eles me chutarem...Simplesmente não entendo o que aconteceu".
Enquanto Mussie diz que nunca irá retornar ao país que o abandonou, Sayel diz que irá voltar na primeira oportunidade. "Não posso fazer nada aqui", ela disse. "Todo meu dinheiro, minha casa, meu negócio estão na Etiópia. Minha vida é na Etiópia". A Etiópia insiste que expulsou menos do que cinco mil pessoas e que o número da Eritréia é maior porque os membros da família se ofereceram como "voluntários" para voltarem com os deportados. Mussie discorda. "Estava claro que eu tinha que levar toda minha família...que eles não queriam que nenhum de nós ficasse", ele disse. "Ouvi de amigos em Addis que uma família estranha mudou para minha casa", disse Sahel. "Meu negócio está sendo tocado por alguém que não conheço".
A Etiópia diz que a Eritréia expulsou milhares de etíopes - alguns depois de serem torturados, estuprados e roubados. Mas a Eritréia insiste que quase todos foram embora por vontade própria - a maioria trabalhadores do porto de Assab que ficaram ociosos depois que as hostilidades começaram. Mussie disse que apesar dos deportados terem sido bem acolhidos pelos eritreus, permanece o fato de que nenhum dos países os considera cidadãos. "A recepção foi boa, mas notei certa suspeita - especialmente por alguns de nós sermos considerados bem-sucedidos e as pessoas imaginarem porque nós não ajudamos a Eritréia antes". Um oficial eritreu, apesar de simpatizar a causa, concorda. "É preciso lembrar que qualquer um que não voltou para a Eritréia depois da independência não é considerado um verdadeiro eritreu", ele disse.
A questão dos deportados também deve complicar qualquer solução diplomática para o conflito. Enquanto a comunidade internacional ainda pressiona pela paz baseada numa proposta da Organização da Unidade Africana, os deportados começam a lutar para que uma compensação seja incluída em qualquer acordo. "Alguns de nós perderam centenas de milhares de dólares", disse Mussie. "Acho que é importante que a Etiópia nos compense por estas perdas". Ironicamente, a decisão da Etiópia de deportar eritreus étnicos pode se voltar contra Addis Ababa. Entre os deportados estão importantes empresários, acadêmicos, médicos, professores e engenheiros cujos talentos já estão sendo usados na Eritréia. Em uma oficina na capital, Wolde Aferon está ensinando mecânicos eritreus a construírem peças de precisão para maquinas pesadas. "Isto é o que costumava fazer na Etiópia", ele disse. "Eu era um professor de engenharia. Ensinei a milhares de etíopes sua profissão. Agora é a vez de ensinar os eritreus".

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