Depois do flagra, o pânico, diz mãe
Ney de SouzaMarcos Benvenutti com a mãe Dalva: perda de 16 quilos em dois anosNa luta para livrar filhos das drogas, os pais têm usado todas as armas. Você só acredita que aquele filho que você cuidou com tanto carinho está envolvido com droga quando flagra. Aí vem o pânico, conta Dalva Benvenutti, de família de classe média-alta em Foz do Iguaçu. Viúva há sete anos, ela perdeu a conta de quantas vezes desceu às favelas para buscar os três filhos: os gêmeos Marco Aurélio e Marlon, de 19 anos, e Júnior de 15.
Numa tarde de setembro de 1994, Dalva recebeu um telefonema em seu trabalho, informando que seus filhos estavam envolvidos com drogas. Chegando ao apartamento onde mora, ficou sabendo que os filhos usavam a droga dentro de casa enquanto ela estava ausente. Eles fumavam crack no telhado do prédio e cheiravam cocaína no banheiro do apartamento.
Dalva, que estava em ascensão em sua vida profissional, com um bom salário e com perspectivas de assumir uma das diretorias de um hospital da cidade, teve que largar tudo quando soube que os filhos estavam envolvidos com drogas. Num primeiro momento, eu entrei em pânico. Depois fui me informar. Só podia conversar com eles sobre o assunto se tivesse informações, lembra.
Ela começou a seguir os filhos e descobrir seus amigos. Percebi que eles estavam em lua-de-mel com a droga. Seria, então, difícil apartá-los, diz. Marco Aurélio e Marlon começaram a usar cocaína em 1994 e, dois anos depois, já não conseguiam viver sem o crack. Do peso normal de 68 quilos, Marco Aurélio passou a pesar 52. Nessa época, os rapazes ficaram violentos e batiam na mãe.
Com o tempo começaram a vender jaquetas, calças jeans e tênis de toda a família para comprar droga. Depois, trocavam panelas, talheres, pacotes de arroz com os traficantes. Tive que esconder videocassete, televisão e aparelho de som no meu quarto. Ainda assim, não adiantou: eles arrombavam e trocavam nossas coisas por drogas.
Levados para uma clínica, os adolescentes acabaram fugindo. Ainda assim, Dalva não desanimou. Descia às favelas armada com um facão ou uma chave de fenda para tentar encontrar os filhos. Muitas vezes chegou a brigar com traficantes, recebeu ameaças e vasculhou becos à procura dos filhos. Eu não podia ficar do lado do telefone durante toda a noite esperando uma notícia da polícia, conta.
Em algumas acasiões, Dalva levou os filhos de volta para casa puxando-os pelos cabelos. Ia nas favelas para buscar meus filhos e recuperar o que eles tinham vendido. Nunca tive medo, afirma. Os diálogos em casa sempre acabavam em brigas e discussões. Dalva chegou a pensar que não havia mais esperança e que os filhos morreriam nas drogas.
Marco Aurélio, o caso mais grave da casa, acabou psicótico. Foi internado numa clínica para pacientes com problemas mentais, onde vivia amarrado. Dalva, quase conformada em ter um filho psicótico para o resto da vida, tirou-o do hospital e o enviou a Curitiba, onde moram os avós de Marco Aurélio.
Num esquema rigoroso e com muito carinho, o garoto foi deixando o vício aos poucos e hoje está recuperado.
Marlon resolveu deixar o vício depois de uma convulsão. Ele se trancou no banheiro e se retorcia. Queria a droga de todo jeito, mas implorava para que eu mantivesse a porta da sala fechada para ele não sair de casa. Ele rastejava pela casa como uma cobra e vomitava bastante, conta a mãe. Depois de um processo de destintoxicação, Marlon voltou a ter uma vida normal. Porém, sofreu muito para deixar o vício.
O filho mais novo ainda está envolvido com drogas. A mãe continua buscando o menino na favela, dá conselhos e faz ameaças. Ela chegou a esfaquear a perna de Junior para evitar que ele fosse a um encontro marcado com um traficante. Mesmo com todo amor e carinho, eu tive que fazer isso. Não posso perder meu filho para um traficante, diz.





