Brasília, 28 (AE) - Enquanto a cadela vira-lata Catita é disputada por canais de televisão por ter salvo a vida de um garoto que estava sendo atacado por pit bulls em Campos (RJ), a cadela Luna, uma american staffordshire que mora no bairro nobre do Parque 10, em Manaus, vem sofrendo dias difíceis em canis da cidade, depois que foi banida do condomínio.
Apesar de Luna somente ter latido para uma autoridade do Tribunal de Justiça de Manaus, a senteça do juiz Victor André Gomes, da 13ª Vara do Juizado Especial Criminal, determinou que a cadela não circule por locais públicos, uma pena por agressão. Acostumada a tomar refeições à base de farinha láctea e leite longa vida, Luna pegou carrapatos, emagreceu e chorou por várias noites nos canis por onde passou, segundo sua proprietária, a relações públicas Nilza Piassa. Ontem, Nilza conseguiu autorização para levar a cadela para casa, espécie de prisão domiciliar, pois também não pode circular com Luna onde haja agromerados e pessoas.
Segundo o advogado contratado por Nilza para defender os interesses da cadela, Luiz Dantas Vasconcelos, Luna está há quase dois meses presa em canis de Manaus, e não tem a expectativa de liberdade para passear pelas ruas da cidade. Nilza disse que ficou surpresa ao receber, final de dezembro, a visita de um camburão, dois policiais militares, um civil e um escrivão, que determinaram que Luna fosse retirada do condomínio. A cadela havia latido para o motorista de uma autoridade do TJ, segundo Nilza, mas quem apresentou queixa na delegacia foi um funcionário do tribunal, que acompanhava a autoridade no dia. O juiz Victor André acusou a cadela de ter avançado sobre os homens e ainda aplicou 10 dias de multa, cada dia correspondendo a um salário mínimo, segundo o advogado Luiz Dantas Vasconcelos. "Banir a cadela do condomínio foi uma arbitrariedade", disse o advogado. A proprietária de Luna disse que já gastou R$ 2 mil com os serviços de advocacia, para tentar libertar definitivamente a cadela.
Nilza disse que ainda não pagou a multa de R$ 1,3 mil e que pretende recorrer da decisão do juiz. O problema é que o advogado Luiz Dantas Vasconcelos ainda não recebeu notificação para entrar com recurso. Hoje, Nilza tomou a decisão levar a cadela para sua casa no bairro Parque 10, mas acredita que terá de devolver a Luna à "prisão" se o advogado não conseguir liminar na Justiça.
Um funcionário do Canil Amazonas, segundo canil onde Luna ficou presa, disse que telefonou para o juiz antes de liberar a cadela e que o doutor Victor André consentiu que Luna ficasse trancafiada na casa da proprietária. A cadela, até sentença final, no entanto, não poderá circular por locais públicos ou onde haja aglomerados de pessoas. No quarto de Nilza há uma cama especial para Luna. Nilza mora sozinha e cria também o cachorro Sol, da raça dachsrund, popularmente conhecido como salsicha. "Meus cachorros são meus filhos. Estou desesperada. Não tem cabimento prender uma cadela que estava na coleira e apenas latiu", disse.
Amanhã o advogado de defesa impetrará o chamado embargo de declaração, pedindo que o juiz esclareça os limites de sua sentença. A partir do embargo é que a proprietária irá saber se terá que devolver Luna ao canil e quais locais poderá passear com a cadela por Manaus. Além do embargo, o advogado impetrará outro tipo de recurso para libertar definitivamente a cadela, para que acompanhe Nilza nos passeios matinais.
Enquanto o processo se arrasta na Justiça do Amazonas, testemunhas de acusação e defesa estão sendo arroladas. Um carteiro garantiu que teria sido mordido pela cadela. Um morador do mesmo condomínio Parque 10, proprietário de dois cachorros, garantiu que Luna é pacífica. O advogado Luiz Dantas Vasconcelos disse que vai recorrer da decisão do juiz com base na inexistência de base legal para a prisão de cachorros. Nilza disse que não consegue viver longe de seus animais de estimação. "Minha relação com a Luna é de mãe para filha. Ela é super mansa, mas latiu para a pessoa errada", disse.

mockup